terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Começaram as contrações...

"Está sentindo? A respiração encurtou.
Começa a contagem regressiva não só pra renascer a centelha divina em cada um de nós, mas para que façamos por merecer a doação feita por Ele há mais de 2 mil anos.
Respira! Não contrai!
Se quando a cãibra nos pega tivermos coragem de esticar, a dor passa. Que na pontada tenhamos a presença de espírito de focar noutro ponto qualquer e entregar.
Acolhe! Já chegou! Embrulha! Confere o coração! Dá banho!
Que a gente dê mais espaço à poesia da vida e menos aos tropeções.
Ouve o coração! Dá o peito! Sente a mãozinha!
Que coloquemos nossa dor na árvore pra cuidar do outro e quando a pegarmos de volta ela esteja inacreditavelmente mais leve.
É a cara da mãe! Tem os pés do pai!
Que exercitemos enxergar a visão de mundo a partir da visão de quem nos choca 'de quando em vez'.
Enrola! Tira foto! Põe sapatinho! 
Que procuremos por a mão na aflição alheia e tenhamos uma brecha de também suspirar a nossa pra longe.
Shhh Vai acordar. Apaga a luz
Que encontremos o que procuramos há tempos imemoriais - seja o Mandiokeijo, emprego dos sonhos, vestido de arrasar ou aquele item fora de produção - companheiro? - ainda que 'rodado, de segunda mão'.
Canta para ele. Põe o ursinho perto. Estica a roupinha.
Que nos permitamos novos sabores, lugares, amores, profissões, sentimentos, amigos, paisagens, energias.
Cobre. Liga o abajur, Roda o móbile.
Que nos cuidemos. Que carreguemos quem adoramos no colo. Que nos entreguemos
Não sei se os dedinhos ou narizinho são mais lindos.
Saúde, proteção e paz de espírito dia 25 e sempre, pra vc e os que ama.
Se apaixonou pelo espelho. Fotogênico...
Para o alto e avante! Que criemos nosso ano com cheiro de tinta fresca e Natal sabor de rabanada."

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Dos 36...

...fico feliz de chegar com sua dor de amor partindo. Que você já consiga rir noites inteiras com o pé na porta do seu pai. Que tenha percebido o milagre da vida de cara sóbria. Que esteja achando maturidade e não velhice curtir o som dos mais velhos. Com suas poesias a caminho e com agenda de lançamento em nova coletânea, agora com mais espaço. Com o curta online! Com as delícias de argumentar e rir em pleno corpo a corpo telefônico com os jornalistas. Com o juízo batendo à sua porta e você - miraculosamente - atendendo! Com as auto cobranças partindo. Com as miseráveis comparações batendo em retirada. Com a capacidade de deixar falando sozinho sentimento insalubre. Com a sabedoria de saber que está apurando e escrevendo mais em assessoria de imprensa do que em redação. Com neuras velhas de guerra sem voz para pirar o cabeção. Com a nova contaminação do estádio. Com as dores dos imprevistos saindo de cena, dando lugar à necessidades e boas ideias. Com interlúdios naturebas, zen e braçais à vista. Com a palavra limpando quando vaza demais. Com uma desconfiançazinha saudável a postos quando necessário. Com tudo certo, nada resolvido, mas a piada sempre a postos. Ainda com a capacidade de rir e chorar junto. Contando com ajuda quando não dá para segurar a bronca por conta própria. Querendo estudar, voltar a se exercitar, mas sabendo que mudança de ano é só uma folhinha na parede. Sabendo que amanhã é só uma miragem. Cansada de esperar. Pondo vontades irracionais de castigo para pensar. Cortando viagem na goiabada de quem gosta de você, mas só sabe amar aos solavancos. Mudando de assunto propositadamente com os pé no peito da sua vida, como a tia doce ensinou. Não bancando a atriz digna de Oscar quando não é possível, se rendendo ao abraço, cama e cochilo quando está corta pulsos pois sabe o quanto o sono é super hiper mega bláster restaurador. Descobrindo que a vizinha descompensada com os filhos tem ótimo gosto musical. Sustando repressão familiar de quem te ensinou a ficar à vontade, mesmo com tanta vizinhança Big Brother voyuer. Indo atrás do que realmente faz diferença. Comemorando as unhas coloridinhas. Corrigindo a postura e se descobrindo outra no reflexo do espelho. Mantendo o que vale pelos sobe e desce profissionais: as pessoas. Posso chegar chegando agora que estamos semi novas? Da sua nova idade

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

À deriva tentando contato

Eu não me adaptei
muito embora tenha limado
os sonhos que tinha e os que não
no nível de mínima sobrevivência
Não me adequei
apesar de ter dado um estômago,
uma apêncite, um sono e lombar
Não me modelei
madruguei feriados
entreguei noites
varei madrugadas
Não me encaixei
perdi entrevistas
não escrevi livros
suspendi processos de criação
que pulsam há anos
e cada vez mais baixo
Não encaixei
deixei amigos na mão
briguei com amores
estive menos com a família
Tenho uma voz rouca
de tanto pedir, agradecer,
chorar e se abrir
a um Deus
que faz ouvidos moucos
Perdi a conta
de há quanto tempo
deixo a viagem, o curso,
a peça, o livro
para o tempo livre
que nunca chega
Poderia criar
um papel de parede
com os diplomas
que não serviriam
para mais que uma decoração
meio intelectual, meio alternativa
Abandonei meus afilhados
não tive os filhos
que me pediram
E não acredito mais
que foi por um bem maior
que era melhor para mim
que virão mehores
Encalhei meu barco
numa praia semi abandonada
de perguntas esperando a minha deixa
Nem mesmo a chuva
que aprendi a amar com meu avô
parece trazer nada de novo
Estou presa num looping
ouço as mesmas coisas
com míninas variações
E tentei à exaustão
Trabalhei com olhos,
barriga e perna
vazando, latejando
Pra ainda ter
quem acredite
que não me adapto
por rebeldia
intransigência
revolta
livre arbítrio
Hoje eu deitei no parque
cochilei embaixo das árvores
me integrei por cinco minutos
Onde Ele estava
quando me traíram
iludiram, mentiram?
Em que esquina
Ele soltou minha mão
e segui falando sozinha
com sua lembrança?

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Não reparei se ela tem gogó

Há uma semana me prensaram na Santo Amaro por um dinheiro que não tinha. Um dos ladrões não consigo lembrar, pois foi no momento em que gritavam "olha para baixo". Pouco depois a dupla se revelou ligeiramente bipolar, já que depois mandavam "olha para mim". Deve ter sido no momento em que cismaram com a passagem da polícia e eu estava dando na cara chorando por não ter o dinheiro do assalto.
O marcante é que um dos assaltantes era traveca. Qual a maneira politicamente correta de chamá-la? Travesti? Cismei que tinha raiva por eu ter o que não tinha, pois foi me xingando dumas barbaridades que estava longe de fazer jus. Fiquei lá arreganhando a carteira para provar que não tinha um real e ainda pedi desculpas:
- Sinto muito, sou atriz.
Tenho uma coleção de assaltos atípicos. Noutra ocasião, na Vila Monumento, ele pediu licença, por favor, desculpa... Desta vez, no final, eu sentia quase um desculpa no tom da voz dela ao final:
- A gente aí levando o que você levou o mês para conseguir... É o crack, depois da polícia não temos o que perder, sabe? - ela me desejou "ir com Deus" nos finalmentes...
Quis ser simpática e ofereci os aneis, mas recusou. Pode ser o palpite duma amiga: dedos grossos. Mas era a única coisa que valia algum dimdim. Me fez dar brincos e colar de madeira, da feirinha da Liberdade. Será possível que isso renda uma pedra?
O mais surreal foi ela tirar meus óculos, perguntar se era de grau... Nessas horas dá vontade de responder "virada no Jiraia":
- Não, uso com lente transparente para pagar de intelectual.
Voltaria precisando de cão guia? Experimentou, cismou que tinha grau demais e devolveu. Quando começou a tirar os chinelos, imaginei que trocaríamos pela rasteirinha e eu trabalharia de Havaianas no dia seguinte, já que dormiria na minha amiga.
Quando ela dava bronca que meu choro estava dando bandeira, engolia as lágrimas e ainda negociava:
- Imagine, tem colega que anda chorando um ao lado do outro, nornal.
Aí quis andar com minha bolsa. Fiquei pedindo remédio, bilhete único e querendo de volta minha lição de francês que levei três semanas para estudar. A gente se apega a cada besteirada nestas horas! Quando ela dizia que me furaria se chamasse polícia ou gritasse, que tinha ajudante, marcou meu rosto, me questionava se chegaria à portaria da minha amiga vazando. E a gente lá tem noção de futuro?
A estranheza era que não estivesse de salto quinze como aquelas que meu colegas juram não ser homem na Indianópolis. Não reparei se ainda tinha gogó. São tão pouco convincentes sem dinheiro, pobrezinhas! Quando finalmente me pendurei na portaria do prédio da minha amiga e não conseguia falar direito, o porteiro achou estranho que estivesse dando bijuteria pra ela, disse que podia fazer um sinal indicando assalto. Justo eu, exageradamente expressiva? Aí sim daria bandeira e provocaria a fúria da traveca descompensada...
Minha amiga aproveitou para provar à filha que tinha motivo pra agilizar quando estavam a pé pelo Brooklin. Nome de bairro negro nos Estados Unidos. Racismo? Coincidência macabra. Questionou se não dava para correr. Perdi a oportunidade de provar que a ironia é minha segunda língua "ah sim, mas achei que seria uma experiência antropológica ser assaltada por alguém de voz grossa tentando imitar nossas curvas". Na casa dela aliviei tanto o que a traveca mandou engolir que no dia seguinte um olho estava mais inchado que o outro, parecia que tinham descido o sarrafo em mim. Não me animei a dar queixa. Estou decidindo o que me constrange mais: a fulana me reencontrar com seus auxiliares ou a má vontade e atendimento sofrível das delegacias. Não por acaso tenho saído cada vez menos agora a pé. Temos sido tomadas pelo cagaço dos craqueiros e sua falta de bom senso, esparramados cidade afora, agora que parecem fugir da internação compulsiva e higienização central. Isso lá tem salvação minha gente?

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Todas as Vezes em que Quisemos Desistir

Todas as Vezes em que Quisemos Desistir
Entendemos o sonho cênico na manhã seguinte
Retomamos o papel a toque de caixa
Perguntamos por onde entramos
Mas não quisemos saber por onde saímos
Nem apressar o fim da cena
Todas as Vezes em que Quisemos Desistir
Compreendemos quem entregou os pontos
com menos dores
Por enxergar à nossa frente
Quem mais machucado seguiu adiante
Todas as Vezes em que Quisemos Desistir
Ouvimos o som do trem irrefreável
E seu refrão pilhando no cangote:
“tem gente atrás! Tem gente atrás”
Todas as Vezes em que Quisemos Desistir
Paramos para ver a mesma flor
De outro ângulo
Redescodrimos um sonho empoeirado
E parimos um novo projeto
Todas as Vezes em que Quisemos Desistir
Renovamos o presente de agora
Nos apaziguamos com o imprevisto de ontem
E entregamos o mistério irresistível do amanhã

Ao enigmático dia seguinte

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Dor a passeio

Na última noite
levei minha dor para passear
Saímos ela ainda era leve
mas à espera do ônibus
seu peso começou a incomodar
Feito criança com sono
não queria ver gente
pedia por cama
e luzes apagadas
Mas o lado sagitariano festeiro
desconsiderou esse anseio
No meio do caminho
a dor apelou ao medo
como chamado de volta ao ninho
Só que livre das lágrimas
teimei cruzando a cidade
Perto de outro berço
pra minha dor aninhar
Xingo e ameaça
choro tive que sustar
A dor que já estava seca
lavou noite
molhou mesa e toalha
inchou olho
embargou voz
Perdõa dor menina
prometo levar cedo pra cama
cantar pra te ninar
quando não quiser comigo andar

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Gangorra

Tua memória
sorriso encoberto
O que dava
máscara teatral
Barba no pescoço
manhã nublada
Essa quase história
céu da boca
Enquadro essa lembrança
com nuances poéticos
Drummondianos
Sonho com olhar entregue
e aqueço os tamborins
Banho descompromissado
rede sem pressa
notas musicais
de Vinícius

domingo, 6 de outubro de 2013

Batida

Pulso ensurdecedor
carta sem destino
Pulso ensurdecedor
foto em sépia
parte moldura
Pulso ensurdecedor
joelho recém ralado
choro sustado
Pulso ensurdecedor
buraco no estômago
Pulso ensurdecedor
noite sem estrela
Pulso ensurdecedor
abraço de criança
Pulso ensurdecedor
beijo no machucado
Pulso ensurdecedor
riso sem motivo
Pulso ensurdecedor
chuva no verão
Pulso ensurdecedor
cochilo na rede
Pulso ensurdecedor
pés na água
Pulso ensurdecedor
sol no rosto
Pulso ensurdecedor
boca cheia
Pulso ensurdecedor
balanço sem pressa

Minha ferramenta

Palavra parceira
para pausa
a paixão perigosa
para capturar
pensamento parando
na paisagem
pouso proibitivo
por pouco tempo
em plena ponte
de pura pedra
só para respirar
se perder no fiapo
do presente
Polir a palavra
lapidar as pontas
temperar o prato
repleto de partes
partidas do peito
Se prender na palavra
pincelar suspiros
perder o passado
paquerar lampejos
de paisagens que passaram
pelas piscadas
Pintar a palavra
perguntar para o poema
partcipar do parto
perdorrer pedaços
parcelar a poesia
Pingar na palavra
pontas lapidadas
pela inspiração
procurar partes
de porcelana
para aprimorar
papo de apaixonar
pela puta palavra
percorrê-la
de ponta a ponta
Pescar a palavra
passionalmente
procurar pelo pincel
personalizado
pintando a lápis
Por a palavra
para pulverizar
os portais
da pulsação
Põe a palavra
para repousar
Empastelar a palavra
Plastificar o pensar
Pingo de palavra
põe para pipocar
a parceira palavra
Perdão palavra
posso personificar
percepções palatáveis
ponho em parênteses
a presença
pouco prática
para explicar
Polida palavra
repercute
parte do que passo
picada para purgar
pulsando o que me pinça
Palavra sapeca!

Recorte de um tempo

Nem é pelo cheiro da água
quase para desabar
que me apaixonei por lá
é pelo que vem da infância
pelo gosto de bolinho de chuva
pelo pé no chão no quintal grande
pela rede na varanda
a vó tentando me por pra dormir
ou guardando pote de danoninho
para brincadeiras mágicas
não é pelo aroma da máquina de café
que tenho saudade incurável
é do vô escrevendo
da vizinha no muro
da boate do interior
do caramanchão perto da igreja
das ruas carimbadas
dos cachorros, muros e carros
meio brancos e marrons
não culpem a terra vermelha
invandindo o nariz e o olhar
mas um jeito sem pressa de sentar
com os parentes e prosear
de dividir comida
e falar pela janela
é por um certo aconchego
é o vô sem voz
depois de puxar
bloco de Carnaval
é o por do sol
visto em cima
da moto do primo.
É o recorte de um tempo.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Somos a metade de uma terra que se desencontrou

Não é só perder o chão
que faz falta
Na hora da dor
vibrar junto
pra passar rápido
Contar tarde da noite
porque gosto de chuva
Torcer pelo projeto
que o outro toca
como se fosse nosso
Mostrar qual o beijo
que arrepia a espinha
não é o único vácuo
Ficar deitado pertinho,
esperando o sonho vir
entregue à preguiça
e à completude do outro
Ler em voz alta
sonhar com as horas vagas
feito a espera da festa
melhor que ela própria
pegar o sobrinho no colo
Subir no balanço
feito criança crescida
e pedir um empurrão
Deitar na grama
e ficar vendo
as nuvens passarem
Caminhar na beira mar
chutar água salgada
um no outro
esquecer que idade temos
Trocar olhar cheio d´água
depois duma peça
sem dizer uma palavra
ou rir até o estômago doer
num filme
Pedir a pipoca
na boca
Fazer trilha
até escorregar
e pedir apoio
Escolher junto
o candidato menos pior
procurar um trabalho
voluntário juntos
que aqueça os dois corações
Pintar uma parede
pendurar um enfeite
inventar uma decoração
que só aquele canto
vai ter
Encostar no frio
mas não precisar
pedir abraço
só esperar
o braço
aconchegar
Esticar esteira
no parque
metade na sombra
e metade no sol
Cantar junto
em show
e perdoar
o grito adolescente
Somos a metade
de uma terra
que se desencontrou
E sussura baixinho
para se reencaixar

Deus pai passarinho

Mal acostumada
à filhauniquice
debaixo das asas
superprotetoras
que reprovam
vôos longe
tento encontrar
espaço nesse ninho
do Deus pai passarinho
sem sufoco
empurra a ferro e fogo
pra empreitadas
longas e tortuosas
Deus pai passarinho
se me vê cair
na armadilha
do apego
muda todas as rotas
faz a vida
dar cambalhotas
Deus pai passarinho
tem um quê
de mãe girafa
dá tranco
pra aprender
a dar conta
das turbulências
Deus pai passarinho
dessamara nós
e incentiva
a construir laços
Deus pai passarinho
desmantela o ninho
de quem tem
síndrome de Peter Pan
e deixa repetir
lições mal aprendidas
Deus pai passarinho
olha de soslaio
borboleta que dá rasante
num estômago
meio poeta
mas nunca mete o bico
só sussura
voa filha, voa
Deus pai passarinho
puxa o tapete
quando o esforço
é demasiado
Deus pai passarinho
muda o rumo
te joga no escuro
conta os minutos
pra fazer o dia a dia
rodopiar

domingo, 22 de setembro de 2013

Que dedo é esse?

Nego que dedo é esse?
cujas pontas mudam a orientação dos pelos?
Nego que dedo é esse?
que passa pela sua foto e não se reconhece?
Nego que dedo é esse?
que pipoca estrelas do céu pra dentro de casa?
Nego que dedo é esse?
que assenta doideira do computador
Nego que dedo é esse?
que pipoca fogos de artifício pra ti
do meu lado
mas quase sem barulho?
Nego que dedo é esse?
que abre espaço pra novas cores
cheiros e sabores
mudarem tua opinião
fervilhando no seu céu da boca?
Nego que dedo é esse?
que mapeia meus poros
pra eu inventar uma nova língua?
Nego que dedo foi esse?
que minha memória corporal embotou
mas nosso lastro logo relembrou?
Nego que dedo foi esse?
que pôs as borboletas do meu estômago
em cambalhota efusiva?
Ih nego que dedo certeiro...

É só um toró

É só um toró
desses que acordam nosso limbo emocional
põem os pelos pra sambar
e o juízo fora de lugar
É só um toró
desses que vêem detalhes quase imperceptíveis
resgata vontade paleozoicas
e estranha choro fora de lugar
É só um toró
que lê as entrelinhas
desabafa chateações irreversíveis
e pimenta as prosas
É só um toró
que traz à tona
emoções velhas de guerra
e rejuvenesce o sentimento
É só um toró
dá um abraço meio aconchego
e meio arapuca
É só um toró
que escamba favores
confessa inexperiência centenária
e perdõa o desencaixe da imaturidade
É só um toró
que divide grilos
labuta um pedaço do coração já sitiado
mas já alerta que a estação das águas é temporária
É só um toró
que cai bem aos ouvidos
mas acende o botão interno de alerta
que quer ser mais parceiro
numa indisponibilidade explícita
É só um toró
debaixo do qual te enxerguei menino
como o que amei na pré infância dos meus amores
num ninho que ainda não tinha dores

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Nada Aconteceu

Nada aconteceu
Não me agarrou
como se o mundo
fosse acabar
antes de relembrar
como faiscávamos
Nada aconteceu
Não me apertou
contra a parede
como se não houvesse
mais tempo
para nos bebermos
Nada aconteceu
Não tirou minha saia
e me amarrou
para provocar meu riso
Nada aconteceu
Não me entregou
um discurso
com atitudes
diametralmente opostas
que desnortearam
o rumo dos sentimentos
Nada aconteceu
Não me ensinou para um teste,
me pôs na garupa,
envolvemos amigos,
lavou louça
e levou para entrevista.
Nada aconteceu.
não passeamos com o cachorro,.
dormimos abraçados no ônibus.
trocamos massagem
e me deu dica
com sua bike.
Nada aconteceu.
não engoliu
até as vírgulas
do meu blog
perguntou do livro
com sua crônica
adivinhou os ingredientes
da comida
e se rendeu a ela
Nada aconteceu
não contou das viagens,
não ouviu do teatro,
não falou das aventuras
não ouvimos dos sobrinhos
Nada aconteceu
não me pegou no colo
testou meu alongamento
disse que gostava de mim
quando estávamos rendidos
e me aninhou para dormirmos
encaixados
Nada aconteceu
não me quebrou na emenda
falando do rosto, da inteligência,
da minha caverna escura
e da batata da perna
Nada aconteceu
tuas palmas não se fartaram
nas minhas coxas,
nádegas e seios.
Nada aconteceu
tua barba não roçou
o pescoço
não me fez chorar
de alegria entregue
não lembrou dos primeiros beijos,
frase, cenário, figurino
Nada aconteceu
não alertou da falta de tempo
e dinheiro
me aconselhou
a pedir que partisse
para abrir espaço
e encontrar o pai
do meu filho,
Nada aconteceu
não se ajoelhou
para se declarar
à sua maneira
quando quis desacelerar
nossas interações
e um filme alertava
que a falta
de atenção mútua
levava à traição
Nada aconteceu
não começou tudo de novo
quando estava de partida
não deixou a corrente
como âncora emocional
de propósito
alegou falta de tempo
mas passou horas
no telefone comigo

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Índigo

Gosto das roupas do avesso
de dormir com a cabeça
no rodapé da cama
Gosto de sentar no banco
que me mostra a paisagem
escapando pelas minhas
costas e olhos
Gosto de rock
no casamento
de misturar estilos
Gosto de pessoas
alternativas e desprendidas
que não se encaixam
Tiro sarro
da grosseria de quem amo
Gosto de reminiscências
de livro antigo
de bazar beneficente
de brechó escondido
Gosto da blusa
que me aponta
como ovelha negra
Mas sou mesmo
é a ovelha vermelha
Gosto de músicas
de outro continente
de dançar
como os índios
os africanos
Gosto de por a plateia
dentro da peça
de história em quadrinhos
de grafite em cima
de construções históricas
Gosto de quem batalha
pra viver do que ama
de quem não suporta
bater cartão
trabalhar religiosamente
até as seis
de quem educa
sem bater
da lambida do cachorro
nos pés
Gosto dele sujo
por ter deitado e rolado
na grama
Gosto de pés na água
de um rio sem nome
Gosto de subir
o morro sem pressa
da entidade me contando
o que não percebi de mim
Gosto de misturar espiritualidades
de perder a hora
dar mais importância à visita
que a TV por assinatura
recém comprada
Gosto de perder o juízo
confiar no divino
perdoar o que não é
de bom tom
Gosto da bruxa
da história encantada
de inventar contos
de cantar descompromissadamente
Gosto mesmo
é da pá virada
de subverter regra
do alternativo
do lado B

domingo, 1 de setembro de 2013

Faxina emocional

Hoje esvaziei tantas prateleiras
abri espaço para parir criações
Rearranjei gavetas, tirei o pó
para que os projetos encroados
venham ao mundo
e aliviem essa febre
de leite empedrado
Esses filhos sim
a gente quer mais
que ganhem o mundo
Joguei comprovantes de contas
nunca conferidos
quem os armazenou
planejava ter o filho
que fez com a outra
antes de terminarmos?
Coloquei as perguntas
sem resposta no lixo
Limpei lembranças
indesejadas do cachorro
a saudade é tanta
que não me aborreci
dele batizar apostilas
Dividi virginianamente
meus livros
Mandei reminiscências
profissionais e amorosas
para reciclar
que elas se transformem
em papel ecológico
para uma nova poesia

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Amor aos solavancos

O corpo
meio passional
e meio brincalhão
Se deitou
ao lado teu
e o chão
não estremeceu
Deus do céu!
esse peito
te esqueceu
Você ressonou
assim pertinho
e meu maior órgão
Não quis nenhum carinho
Tua mão terapeuta
ajustou minha perna
e teu toque
não deu choque
É uma graça alcançada
a dor foi aquietada
Outro amor
o silêncio do quarto fez lembrar
mas finalmente sem dor
e nenhuma borboleta no estômago voar
Quando o ensaio
de paixão atual
minha coluna arrepia
não confio: essa faísca
é sempre igual
Assenta coração tropeiro
que nos teus solavancos
boto cabresto e reio!
Franzoca Brandão

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O diabo era a sombra

Se reconheceu na incapacidade patológica de ser feliz. Naquela ânsia clariciana de que não era nem liberdade o que queria, era muito maior e não tinha nem nome. De olhar o que caía no colo com olhos míopes, mirando sempre um horizonte, que, à lá Galeano, fazia continuar caminhando, mas... Nunca chegava. O amigo tinha razão. O diabo era a sombra. De quando caíam nas mãos um, dois trabalhos e a cabeça pirava antecipadamente com as contas lááá do mês que vem. Ou atraía um, dois, três atípicos dançando e se rendia ao que menos potencial tinha. O eterno boicote nas entrelinhas. O diabo interno à espreita. Quando acabava subitamente uma paixão, desejava em alto e bom som futuros vexatórios pro ex. O Sartre estava errado, o inferno somos nós, não os outros. Quando saíam com ela antes do imaginado numa parceria de sangue, suor e lágrimas e na saudade, queriam que sentissem sua falta, de um modo não muito nobre. Olha o diabo ali. A felicidade quentinha, feito bolo saindo do forno, com as possibilidades, os sonhos, a criação, o que não se toca. E a mania doente de querer concretude, segurança, realidade... Que não existe. Tudo é sonho - alguns da vigília, outros, oníricos, como ensinou o budismo ou... Sim Calderón de La Barca, a vida é sonho. E quanto mais a vida tiver jeitinho de mentirinha de verdade, melhor. Escreve uma ode às pequenezas felicidades sutis. Se propõe a policiar para que elas não passem mais batido. E diabo, ela está de olho em você!

domingo, 18 de agosto de 2013

Talhar a palavra

Palavra parceira
para pausar
a paixão perigosa
para capturar
pensamento parando
na paisagem
pouso proibitivo
por pouco tempo
em plena ponte
de pura pedra
só para respirar
se perder no fiapo
do presente
Polir a palavra
lapidar as pontas
temperar o prato
repleto de partes
partidas do peito
Se prender na palavra
pincelar suspiros
perder o passado
paquerar lampejos
de paisagens que passaram
pelas piscadas
Pintar a palavra
perguntar para o poema
participar do parto
percorrer pedaços
parcelar a poesia
Pingar na palavra
pontas lapidadas
pela inspiração
procurar partes
de porcelana
para aprimorar
papo de apaixonada
pela puta palavra
percorrê-la
de ponta a ponta
Pescar a palavra
passionalmente
percorrer pedaços
procurados
pelo pincel
personalizado
pintando do lápis
Por a palavra
para pulverizar
os portais
da pulsação
Põe a palavra
para repousar
Empastela a palavra
plastifica o pensar
Pingo de palavra
põe para pipocar
a parceira paralela
pedaço de apaixonar!
Perdão palavra
posso personificar
percepções palatáveis
ponho em parênteses
a presença
pouco prática
para explicar
Polida palavra
repercute
parte do que passo
picada para purgar
pulsando o que me pinça
Palavra sapeca!

sábado, 17 de agosto de 2013

Amor aos solavancos

O corpo
meio passional
e meio brincalhão
Se deitou
ao lado teu
e o chão
não estremeceu
Deus do céu
esse peito
te esqueceu
Você ressonou
assim pertinho
e meu maior órgão
Não quis nenhum carinho
Tua mão terapeuta
ajustou minha perna
e teu toque
não deu choque
É uma graça alcançada
minha dor foi aquietada
Outro amor
o silêncio do quarto fez lembrar
mas finalmente sem dor
e nenhuma borboleta no estômago voar
Quando o ensaio
de paixão atual
minha coluna arrepia
não confio: essa faísca
é sempre igual
Assenta coração tropeiro
que nos teus solavancos
boto cabresto e reio 
Franzoca Brandão

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Nego que dedo é esse?

Nego que dedo é esse?
Cujas pontas mudam a orientação dos meus pelos?
Nego que dedo é esse?
Que passa pela sua foto e não se reconhece?
Nego que dedo é esse?
Que pipoca estrelas pra dentro de casa?
Nego que dedo é esse?
Que assenta a doidera do meu computador?
Nego que dedo é esse?
Que estala fogos de artifício pra ti?
do meu lado
mas quase sem barulho?
Nego que dedo é esse?
Que abre espaço pra novas cores,
cheiros e sabores
mudarem tua opinião
fervilhando no seu céu da boca
Nego que dedo é esse?
Que mapeia meus poros
pra eu inventar uma nova língua
Nego que dedo foi esse?
que minha memória corporal embotou
mas nosso lastro logo relembrou?
Nego que dedo foi esse?
que pôs as borboletas do meu estômago
em cambalhota efusiva?
Ih nego que dedo certeiro...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Lua encoberta

A garoa que tomei
rendida em olhar entregue
fervilhava uma cólica
pulsava em paralelo música do Vinícius
choque entre palavras e gestos
faiscava a melodia de um poema do Drummond
E eu, quase translúcida
Me rendi à tua máscara teatral
gotas me encharcam
permiti ao banho descompromissado
se fartar no cheiro da chuva
tua presença, sorriso encoberto
com teu silêncio, sono sem abraço
contigo, tatear às cegas em manhã nublada
abandono à procura de luz de estrelas
neste céu da boca

domingo, 4 de agosto de 2013

Em Parati com a Tatit

Somos irmãs por adoção e como na peça Cinzas do Velho, fizemos resgates inesperados na última semana, não dando cabo da cremação do pai e se prendendo num hotel de beira de estrada com carro quebrado como no espetáculo, mas quase trabalhando juntas, viajando, ganhando carona, consolando dores de paixão reincidentes, dançando e forçando a cuja bateria arria mais rápido a por o esqueleto para mexer. No saldo, uma manhã e uma noite sob lágrimas, o que parece ser um saldo positivo para quem cismava com a dubiedade do que sentimos, por conta de nosso jeito pé no peito capricorniano-Mendonça de amar.
Com massagem também se expurga mal estar emocional retardatário. Ou simplesmente se demonstra carinho espontaneamente. Pães na chapa e cafés cheirosinhos deram bom dia às nossas dores, risadas e sonhos ao menos umas três vezes nos últimos sete dias. Caronas comportaram palpites providenciais, gargalhadas espontâneas aliviaram mal estar emocional, cafunés noturnos acolheram dores imprevistas, risadas nos libertaram de "ranzinice" velha de guerra, soneca em beira de piscina aterrada deram uma trégua do calor meio trator entre árvores e pássaros violentando a cidade cinza, presente inesperado escancará em parede pelada a bênção de compartilhar gostos, desentendimentos, sabores, amores, reportagens e crônicas imperdíveis e impagáveis, além de roupas, batons, ideias, generosidade, presentinhos amortecerem amores que volta e meia davam coices ou cabeçadas - mas nem por isso negavam esse querer bem praticamente "de sangue".
E entre lágrimas, stress, palhaçadas, preocupações, boas vindas, caminhadas, acolhimento da escorregada do pé na jaca alheia, ampliação da flexibilidade com nossos mestres de paciência familiares, arrasta pé, troca de vivências espirituais, "uso da ironia como segunda língua", abraços nos amores de nossas vidas mais genuínos, "navegação autista de viciadas", nos deleitamos com uma nova velha paixão: Parati. Enchi os olhos e voltei à infância com o telhado de chita da pousada para lá de simplesinha, na qual perdemos o fôlego de rir, chorei no cais dos barcos como "mineiro que debuta com o mar", "fartei" os pés num chão histórico e descômodo, fizemos amigos, a simpatia dos caiçaras quase me fez passar por nativa, rejeitamos restaurantes "praticamente franceses","botecamos" à beira de pracinha interiorana, me desculpei com o primeiro cavalo de olhos claros da minha vida por subir nele para matar a saudade de andarmos juntos, perdi a vergonha de mergulhar de calcinha e sutiã, "tão pouco diferentes" do esquecido biquini, singrei os mares fluminenses deitada e folgada e - quem diria, ironia do destino - retornei à meditação me fartando da paisagem no farol histórico. Não, nem tudo são amores. A sobremesa italiana me deixou empachada, o chão do quarto e lençol onde dormimos eram suspeitos, bêbados forçaram amizade na viagem e na balada, imprevistos abortaram ainda mais delícias conjuntas, a pele meio papel de seda se ressentiu dos paralelepípedos paratianos, Iemanjá levou mais que imaginava após nosso ansiado reencontro e a areia da Ilha Duas Irmãs lembrava a de Itaparica pq não se transforma uma praia em particular impune. Mas tudo contribuiu para um raro sono de Mendonça voltando para o caos metropolitano. E nele acolhemos pirações, relevamos os lados gourmets que enfiaram os pés nas jacas, mimamos a "filha-afilhada adotiva", brincamos de Lilica com a tarada canina e de afro noturnas, botamos chateação fora de lugar para correr, demos apoio moral à inadiável faxina, fomos carona paciente, cantoras, cabeleireiras, prolixas e filósofas, além de comprovar que de médico e..."louca mansa", Deus e o mundo têm uma porção significativa.
Bem, se havia dúvidas sobre essa "irmandade construída", espero que elas tenham se dissipado.
P.S.: Este post espera por suas "ilustrações" brother rs

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quando me vi aranha...

Teu medo patológico se justificava
mas joguei a teia do apaziguamento
Me apontava possibilidades de maior entrega
te "novelei" descartando rótulos
Tua falta de tempo se desculpou
mas te enredei retardando suas manhãs
Seu aperto, sem graça, se interpôs entre nós
nos enveredei pelo roteiro alternativo sub undergroud
Teu aperto corporativo se explicava
mas as garras do meu senso de humor
o que me dizia que passaria semanas conversando
te faziam adiar essas trocas
Teus alertas de que um ensaio de relação
não necessariamente conduzem à ampliação dela
tiveram o rumo da prosa alterado pelas teias dos meus cílios, dos cabelos...
Quando propunha que o fizesse bater em retirada
por uma história com menos restrições
meus temperos se mancomunavam
e te levavam para a infância
a casa da avó
as tábuas de madeira
uma outra luz entre as ripas
E se previa que qualquer dia
um filme me encantaria
e afinal eu decidiria
por uma vida mais cinematográfica
A pipoca com manteiga
distraía a vontade de chorar
que o escuro atrás das telonas
camuflava que talvez tivesse razão
E quando te reencontrava
a teia das minhas pernas te prendia
um pouco mais
Minhas teias só não continham
a mudança do meu olhar
a postura que travava
e você...perguntava
Afrouxei a teia
só um bocadinho
meu desejo de mais
desaguou
nem se especificou!
Naquela noite
teu braço não me enlaçou
E você, como era de se imaginar
nunca mais voltou.
Quando arriei o vácuo da tua falta
e enxerguei para além
dessa falta que lateja
Vi as teias, todas
amarrando sua língua
quando cantava
que era só uma chuva
Só podia me engasgar
com meu próprio veneno
Nesse dia quis te escrever
ser lacônica
pedir perdão
Mas a rede das palavras
finalmente se rompeu

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Revoada

Quero um amor deseducado
que tem tanta sede de sorver a vida em grandes goles
mal se lembra de pedir licença
Um amor que me pega no tranco
e deixa a pele em dúvida
se encharca ou arrepia
Quero um amor anestésico
que passe pelas feridas feito xilocaína
Quero um amor revoada
que me despenteie
que borre o batom
me deixe amarrotada
Quero um amor que me vire de ponta cabeça
que me deixe do avesso
que estoure botões e zíperes
que deixe marcas vexatórias no dia seguinte
Quero um amor em ebulição
que arrepie a base da coluna
e ponha as borboletas do estômago para correr
que imprima um rastro dolorido no pescoço
que me deixe sem ar entre o abraço e a parede
Quero um amor desgovernado
que não lembre onde estão as chaves
que quebre os brincos, derrube óculos
Quero um amor arrasta pé
que não resista a um ziriguidum
que dance como se ninguém estivesse vendo
que rodopíe de olhos fechados
Quero um amor que preencha
que dificulte segurar o riso no escritório
que não ensaie o que diz
que esqueça a marca e a fala
que perca o rumo de volta
Que queira correr pro lago no parque
que perca a memória
que reinvente a história

domingo, 30 de junho de 2013

Ocupa Brasil

Na noite em que saí de uma colega acreditando que "os anjos estão entre nós e a identidade secreta deles é a de massoterapeutas", flutuei até o trem Vila Olímpia, onde devo ter chegado antes das 23h30. Mas a CPTM deu um chá de canseira de mais de meia hora. Quando chegamos à estação Pinheiros, o aviso eletrônico que "quebrou nossas pernas": a linha amarela já tinha encerrado as operações. Ficamos eu e um bando de passageiros, que também tinham tomado "caô" deste "transportezinho mequetrefe" a que somos submetidos questionando os funcionários. Um deles disse que teve um problema na linha.
- Tá, mas uma voz qualquer tinha que avisar lá nas outras pontas: vagão demora por causa sei lá do que, para os "palhacitos" aqui tomarem providências, descerem, pegarem ônibus, jangada e cipó, não depender de vocês. - reclamei, que voltei a fazer jus à minha fama de barraqueira
Vi um cara fazendo o que devíamos todos arriscar: tentar pular para dentro da estação Pinheiros de metrô. Defendo o Ocupa Brasil. O serviço público não te atendeu a contento? Faça "camping" no hospital, escola, estação, até que resolvam o problema: nem a saúde, educação ou transporte são de graça, muito pelo contrário, só de impostos são quase cinco meses da nossa produtividade anual.
Uma vez fiz isso no Beneficência Portuguesa, depois de uma semana de vai e vem e diagnósticos errados:
- Enquanto não resolverem a contradição de teimarem que é infecção de urina, eu tomar os remédios, vomitar e continuar com sintomas, não vou embora.
Tá, fiz o barraco na parte de convênio, mas tinha passado em hospital público em São Caetano, que se vangloria em sua síndrome "primeiromundista". E aqui mora o defeito que nos ferra há séculos - relevar inclusive o que não devíamos. Uma semana de palpites me mantendo ruim, dez dias de hospital, vinte em casa e apendicite suporada. Minha amiga que teve problema semelhante meteu o hospital no pau. Pq raios não fiz o mesmo? Pq consegui a plástica pra corrigir a barbeiragem médica pelo convênio. E daí? Empatei mais de um mês da minha vida nessa brincadeira e minha barriga nunca mais foi a mesma. Ocupa o posto de saúde!
Com o transporte, a mesma várzea. Trem e metrô não se entendem e deixam a gente sem conseguir as últimas conduções? Ocupa a estação. Não tem vaga na escola que presta perto de casa? Ocupa a secretaria. É nosso, estão nos assaltando a mão armada e muito pouco a que temos direito volta pra gente.
Que fizemos nós sem condução? Perguntamos pelas linhas do Terminal Pinheiros. Pensei em pegar a que ia até o Largo da Pólvora, noturna e sabe Deus, rezar por um que fosse a partir da Paulista ao Ipiranga, perto do Terminal Sacomã. Mas nada dele chegar. Me aconselharam a tentar pegar o Sacomã no Parque Dom Pedro, mas o motorista que ia para lá achava que não teria mais "carro desta linha no centro". E de lá, pedir pernoite para quem?
Um ônibus do outro lado piscava Via Paulista no letreiro luminoso. Me deu uns cinco minutos, mesmo desconfiando que ela já estava dormindo e liguei na meio tia, meio mãe. "Contei da missa a metade". Parti para a casa dela. Estamos errados, devíamos passar a noite protestando no trem Pinheiros. Nem procurar a ouvidoria eu fui. Este "empurra com a barriga" ainda acaba conosco.
O maior símbolo do que representa este Ocupa Brasil que imagino são os brasileiros tomando aqueles monumentos de Brasília, que sempre teve a fama de "manter o perigo lá nas cidades satélites". Sobe no "Deixa que eu Empurro", acampa no Pelourinho, empata o Cristo Redentor, lota a beira do Guaíba: toma que o País é teu.
Em tempo: minha tia seria uma mãe e tanto. Depois de trocentas horas de esporro por estar na rua meia noite e tralalá sem condução (ainda tem mais esta, o governo do Estado te dá chá de canseira no transporte e a culpa é tua!) ganhei uma camisa, um leave in e uma galocha. Está mais que escolada em bate assopra. Sabe Deus pq sou "aboxonada" por ela, deve se a força do sangue. E também da semelhança: tenho a cara dela no casamento dos meus pais, quase 4 décadas atrás. Só sei que estou na fase "nunca mais voto em ninguém". E ainda assim na última discussão política em que me vi no meio, "pedi o pinico": como diz minha tia, vamos falar de sapatinho. Que o tema estava indigesto demais para um sábado à noite.
E da várzea dos serviços públicos direto para o pão e circo: estava tão orgulhosa de não ouvir um fogo de artifício durante os jogos da Copa das Confederações, mas nesta noite em que jogamos "sabe Deus com quem", minha alegria se acabou e brazucas que não ganham nada com a vitória da seleção gastaram para comemorar a vitória de continuarmos com os serviços públicos à míngua, mas termos estádios de primeiro mundo pipocando nossos ouvidos e céu. Mas como diria minha ex marida, "esse assunto não precisa ir até o final". Dorme com esse barulho!

domingo, 23 de junho de 2013

Existe amor e protesto em SP

Há uma semana conseguimos provar que sim, ao contrário da música do Criolo, Existe Amor em SP. E também protesto, como atesta a imagem do meu professor de roteiro, Ricardo Espíndola. De Pinheiros até a Globo no Morumbi, a designer Daniele Vargas registrou "executivos coxinha" caminhando ao lado de casais de namoradas, senhorazinhas compartilhando do mesmo ideal de jovens, punks, playboys e gente da periferia entoando o mesmo grito de protesto, motoristas buzinando e sorrindo no trânsito. O Terra ainda registrou policiais se sentando ao lado de manifestantes e sendo aplaudidos. Sou seja, nem tudo está perdido, tem muito incômodo em comum unindo indignados - muitos inclusive que nunca tinham ido às ruas. Esto é um post de uma brasileira que não desiste nunca - e ainda por cima sagitariana, incorrigivelmente otimista.
Também não vou dar uma de bairrista que só em São Paulo tivemos durante uma noite de protestos uma demonstração de que é possível que pessoas que geralmente pensam muito diferente se unam reivindicando as mesmas pautas - redução de tarifa de ônibus, hospitais e escolas "no padrão Fifa", que os gays não sejam tratados como doentes por políticos de mentalidade enferma. Em Pernambuco os manifestantes conseguiram entregar as flores aos guardas, que seguravam faixas apoiando a revolta mais do que justa deles. Fora o policial que espirrou água ao invés de pimenta nos manifestantes e foi punido - ou seja, grazie a Dio nem todos simplesmente "cumprem todas as ordens" como robozinhos.
Também não sou "criança feliz" de achar que tudo são flores. Desconfio que os filhos ou netos daqueles asquerosos dos carecas do ABC, que queriam bater e matar negro, nordestino, gays e tudo que fosse diferente do padrão raça superior que criaram em suas ideologias furadas, devem ter resolvido vir para a rua no fim da semana quebrar bandeira não só de partido, mas de militante negro também. Ou seja, eles não são só contra partidos, mas contra a diferença. E quem auxilia na organização da batalha pelos direitos que nos são negados se não os movimentos e alguns partidos que já estão na briga há mais tempo? A vizinha de fila na drogaria reclamando "que não aguenta mais tanto protesto" é que não é. Embora esta direita fascista criando página no Face a favor de golpe militar seja de arrepiar os cabelos e segundo o jornalista Sakamoto, a maior parte do País queira redução penal, seja contra casamento gay, ache que a mulher não é dona do seu corpo e tenha nojo de imigrante pobre latino americano, esta lição do significa nosso hino, colocada em prática em pleno metrô paulista, me parece uma luz no fim do túnel de que temos conexões similares, já que na entrada deste transporte público não se checa se os usuários e manifestantes são a favor das mesmas causas para embarcarem na mesma estação. Como fazer o policial entender que ele também é povo? A "classe mérdia" que o consumo instigado pela mídia é insaciável e o roubo na educação, saúde, contra um é contra todos? Só por Deus, diriam meus parentes evangélicos. Só pela conscientização política e social, atestam meus primos, militantes e educadores. Tendo mais pela segunda opção, até por ter estudado licenciatura em artes cênicas, por ter sido "irremediavelmente acordada" de uma das montagens da peça Mais Valia Vai Acabar seu Edgar, ter tido pai sindicalista e rata de aula de história. Se conhece quem fugiu delas, senta com o "nó cego" pra ser didática por amor à pátria. Como dizia Jesus, "eles não sabem o que dizem". Aguardamos, trabalhamos e torcemos pela cenas das próximas manifestações.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Toma que o País é Teu

Até os 45 do segundo tempo, confesso, estava tirando o meu da reta, pois tinha enfiado a perna no buraco do metrô semana passada e estava com medo de não conseguir correr caso precisasse. Mas o compartilhamento online do crescimento da manifestação me contaminou positivamente: fui do trabalho ao médico e de lá encontrei amigos no começo da Ponte Estaiada. O mais bacana é que minha avó tinha razão: os loucos mansos se reconhecem. Estava indo de trem sozinha e saindo da estação, bati o olho num estudante, também sozinho e perguntei "por desencargo de consciência":
- Vai pra manifestação?
- Opa!
- Então vamos!
Quando encontramos meus amigos, lembrei do que diz minha mãe "que quando pessoas que se conhecem conseguem se achar numa multidão é pela conexão de alma". Meu colega foi procurar a turma dele e meus companheiros quiseram ir para a Paulista, mas me passaram o relatório: do Largo da Batata à Globo confirmamos "que coincidência, sem polícia não tem violência".
A Santo Amaro estava com os ônibus parados, motoristas e cobradores nos canteiros praticamente "numa happy hour". Tivemos que fazer um pit stop numa padoca para reajustar o humor da minha amiga, já combalido pela fome e éramos guiados pela "rata da zona sul", que nos levaria ao metrô Conceição, já que
eles estavam ligeiramente cansados de ter ido da zona oeste à sul.
Mas acabamos optando por um ônibus na Vereador José Diniz. A mochila do meu amigo era a do manifestante mais precavido: máscaras, luvas e o perseguido e polêmico vinagre. Tinha emprestado da minha chefe um cachecol pensando em proteção contra as bombas de gás lacrimogênio, mas acaba de me ocorrer que com os furozinhos da lã não seria de muita serventia.
Descemos no Centro Cultural São Paulo e fomos para a Brigadeiro Luís Antônio, de onde vinha o pessoal da zona oeste (e este atalho minha perna ainda roxa agradeceu). Nunca emocionou tanto cantar "o povo acordou" juntos e não ser exagero de sagitariana. Fomos para baixo do MASP e ouvimos uma "oração militante" de comprometimento a não parar até que a tarifa caia, repetida em coro pelos presentes.
Foi simbólico que lá pelo meio da noite a caminho do protesto, minha mãe tenha ligado perguntando onde estava, para onde ia e eu respondendo lembrando da impagável Matilde (quer uma verdade nua e crua ou uma mentirinha condescendente? Escolhi pela minha progenitora), que ia encontrar minha amiga inacreditavelmente parecida comigo e quando ouvi:
- Vai para passeata?
- Claro que não.
Ela pode não ter me deixado ser cara pintada na época do Collor, mas agora, semi nova, já marchei com o movimento estudantil pelos direitos das mulheres, com minha comunidade pela paz, uns aninhos atrás contra outro aumento da tarifa com os estudantes da Brigadeiro Luís Antônio (sempre eles!) e agora, com um orgulho que não cabia no peito, entre trintões, "aborrescentes", quarentões, dona Palmirinha e seus 80 anos, nunca estivemos tão nivelados em nossa razão de protestar e com tanta razão quanto cantamos:
- Que coincidência, sem polícia não tem violência!
Não por acaso fiquei com preguiça existencial de responder à colega PM no Facebook, que pelo próprio post já dá umas pistas do quanto eles não querem mesmo que levantemos nossa voz. Para mim, a inexistência de vandalismo da zona oeste à Paulista falam por mim. E como diria o personagem do meu coração do filme/ livro "O Lado Bom da Vida": amor é tudo que tenho para te dar. Foi um mar de "com licença, por favor e obrigado" nesta segunda. Como dizem as imagens da Internet "o povo se uniu e nem era Carnaval". Quem ainda não experimentou "ocupar o seu País", toma que o Brasil é teu. E se ainda não mostrou a que veio, não perde a ocasião e hoje #vempraruavem.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Letra guerreira

De joelhos cai o protesto
de farda vem a resposta
Flores em punho das mãos pacíficas
balas de látex devolvem as botas
Sangue interrompe a cobertura
Vidro quebrado do lado de lá
Solidários, países irmãos protestam
Lixeiras, lojas, carros estourados
revolta suspeita para lá da trincheira
internet colabora e reverbera
o GPS seguro da marcha
vídeos desmentem discursos vazios
Não é digno marchar sobre pétalas
Até vinagre entra na repressão
cozinhar não posso mais não?
Quarta, quinta marcha
tarifa zero, essa rua é nossa
ocupar calçadas e avenidas para que?
se a tarifa dificilmente cai?
Já dizia Galeano
a utopia nos mantém caminhado
Santo Che que nos livre
de vivenciar a música do Rappa
e sentar na poltrona num domingo
a indignação ainda nos move
até que este país se renove

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Ritual de restauro


Ainda grávida de tua brasa
empesteei minha casa
na fogueira de tua lembrança
e o debaixo do tapete virou mudança
Dei cabo da tua fuligem
Estanquei esta sangria, limpei a margem
O incenso me salvou do ritual de passagem
Mesmo caipira do asfalto, me senti tão selvagem
Despachei tuas cinzas, limpei teu rastro
Em dizer uma coisas e fazer outra, é um maestro
Então relaxei, recebi da família
transmutei, dei à amiga
Encarei cisma antiga
e não ouvi mais aquela cantiga
Será que foi o glaucoma?
libertei paixões da redoma
e em pleno mês dos casais
vertigens convulsivas não sinto mais!

domingo, 2 de junho de 2013

Personagem wicca

Queimei teu rastro
O olfato estranhou
Aroma tibetano limpou cada canto
Abri espaços
Afoguei o lixo
Abri as janelas
O frio fez carinho
Varri as cinzas
Tua fuligem também precisa partir
Na hora de jogar os restos
Do presente enigmático
Uma imagem de cabelo
Fogo como meu peito
Resistiu ao fogo e ao vento
Vai com todo o medo que te trava

E chuva, lava o que me prende

quinta-feira, 23 de maio de 2013

À deriva

Corpo ele não vai voltar
pés a massagem dele ficou na memória
panturrilha ele não vai te elogiar
palavras e toques entraram na nossa história
coxas aquelas palmas em vocês não vão se encher
cintura na escada rolante ele não brinca mais te enlaçando
quadril aquele forró ele vai te dever
seios nem hálito e nem aperto vão te acordando
e saboneteira não adianta derrubar a alça
ele não vai mais ver
pescoço, ombro a barba e aquela respiração
entraram para o caderno de recordação
e boca eu só repito esse caminho
pra te reafirmar que agora a gente caminha sozinho
Sei corpo essa cama dobrou de espaço
mas dizem que em algum momento
esses nervos viram de aço
refazer esse trajeto sozinha eu não aguento
Corpo a gente já escreveu, suspirou
incomodou tudo que é amigo
Agora teu trajeto é comigo
Mas dedos bailarinos porque usar lápis de cor
não sei, poeta gosta de maquiar a própria dor
Ah mente não invente, isso ainda não era amor
Pois então tente: 
é mais difícil abortar no auge do torpor
Ô coração, sabe esse talho que abriu de mal jeito?
Eu prometo ainda vai virar só tatuagem
Onde foi que a gente se perdeu nessa viagem?
Não interessa: é preciso alcançar a outra margem

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Abortando paranoia

Tempero a palavra
descubro e precisro
por bege
esculpir piorada
o vibrar da boca
puxar da lembrança
brincar de despistar
a paixão bipolar
barbarizar o alumbramento
soprar o arrepio
embotar o beijo
reprogramar a pele
despistar o abraço
esculpir e apalpar
o pedaço proibido
preciso por o barril de pólvora
próximo à ponte
bonita de lembrar
poema para parar
a lembrança bivolt
o perfume evaporou
a paixão pesticida
precisa partir
borda o passado
pendura na parede
brota no peito
brasa por apagar

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Que ímã é esse?


Queria estar contigo antes de criar juízo
de se estofar com medo da queda
de beijar segurando o freio de mão
de abraçar pisando em ovos
de medir as palavras
de recomendar cautela
de entrar na floresta na ponta dos pés
de respirar fundo na curva mais perigosa
das cicatrizes, antes das feridas
de suspender a queda no auge da montanha russa
de evitar a amizade multicor expandida
Só que antes da pele ralada
Da risada empolgada
Do choro sentido
Da esperança contida
Da paixão que breca no vácuo
Do amor esquecido na rede
Você não tinha esse ímã

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Marcas do raio de dor

Não tenho medo de relâmpagos, só desse raio de dor que me assalta imprevisivelmente no meio da tarde, como se pudesse acolher aquelas pontadas que latejam em pleno expediente, como se fosse conveniente tentar segurar o sangue que escorre no auge do pico de trabalho. O estilhaço do que me partiu subitamente me rasga o resto do dia e vou recriando minha quase infinita capacidade de rir da minha desgraça, para conter na raça aquela água salgada que teima em escorrer. O raio de dor não faz barulho, te parte sem esperar e o restante do dia se dilata enquanto brinco de equilibrista chinesa para não derrubar os pratinhos de dores nem um pouco esperadas. O raio de dor me deixa em dúvida se vem do último imbrólio amoroso, do reconhecimento inesperado intra familiar, da reacomodação de sonhos trabalhistas velhos de guerra, do perder a hora em cursos longamente ansiados... Ele não diz a que vem, o que o provocou, só insiste em te partir em pedaços, que vamos tentando grudar novamente, fingir que as feridas não abriram, fazer de conta que cola refaz o que rachou de surpresa. O raio de dor te assalta sem mas nem talvez, deixa espaço para muito pouca coisa, nos traga numa avalanche de memórias, questionamentos, dores surpresa... O raio de dor não deixa cheiro, não acende nem apaga luzes, não tem gosto nem bom e nem ruim, não faz estardalhaço e a pele mesmo se questiona se de fato ele passou por aqui, mas o vácuo no estômago, o nó na garganta e a maré que se abre entre os cílios não deixam dúvidas. O mal estar se esparrama de uma tal forma, que lamenta não ser dia de terapia, se recusa a incomodar amigos, poupa os familiares, jura de pé junto que passará, que aquilo não é hora de furdunço emocional, se recusa a dar espaço para que te vire do avesso. Não quero fazer ligações, atendê-las, responder ou criar e-mails, visitar amigos ou parentes, o movimento é, como diria um professora de yoga, o de tenda da lua, entrar no casulo, se fechar onde nascem as ostras, não deixar rastro. E a literatura, sempre ela, a insistir na literapia, nos curativos emergenciais, na troca de impressões urgentes, no melhorar a própria dor a fim de reapresentá-la mais bela e digerível, para nós mesmos, os leitores e os ouvintes. O raio de dor nos põe de ponta cabeça de uma tal forma que só é possível processá-lo e abortá-lo dias depois, com uma certa distância que serve de precaução, como quem começa a olhar o mal estar prévio na vitrine, pendurados no biombo, esquecidos fora de casa propositalmente. O raio de dor não fez mais estragos do que forçar uma limpeza emergencial nos olhos, mas se fez sentir como quem recebe um tsunami, só que era só mais uma reacomodação do que fugiu ao previsto e precisou ser realocado nas prateleiras que tentam por alguma ordem à teia de caixas de Pandora na qual me equilibro e escorrego com um razoável revezamento. O raio de dor ainda me deixa em dúvida, mas foi moer em pedaços a estrutura de outra freguesia. Nem eu mesma sei ainda o que é que ele veio ensinar. Talvez só mudar curativos de lugar e por questionamentos sob outra ótica. Mas ele não precisava definitivamente deixar tanto pó e cacos pelo caminho.

domingo, 28 de abril de 2013

Curte a chuva enquanto ela cai

Deixa ele se esparramar na sua vida sem afobação. Diz pra ele que só me perdi na ansiedade pois homem que repara em detalhe desconcerta. Ouve ele que o conteúdo é afrodisíaco. Conta o que leu, escutou, assistiu ou viajou que é quando os laços se fazem mais charmosos e nostálgicos. Cozinha junto que é sexy e cria conexões sensoriais e saudosistas. Fala que queria ter acertado um pão para ele. Ensina o inglês que não deu tempo por mim. Avisa que aprenderei bike pois ele lembrou o quanto adoro vento no rosto. Repara no cenário das peças no meu lugar. Dá um toque que verei mais documentários e tentarei não sentir falta do que ele achou. Confere as exposições de grafite e gravura com olhos infantilmente curiosos a dois. Confessa que me arrependi de ter parado de desenhar traumatizada com régua e esquadro no curso técnico da infância. Alonga antes de subir na moto por horas e aprecia a paisagem menina. Abre o jogo que queria ter tirado foto da minha primeira viagem de motoca e registra as de vocês antes que façam falta. Aproveita os amigos dele no meu lugar. Ri com ele que parece piada, mas até as amigas se acostumaram mal à companhia dele. Compartilha tuas aventuras e se arrisque com ele como eu sonhei moça. Divide que meu mochilão está em planejamento e ainda projetarei fotos das minhas visitas na parede como ele fez com as deles para me dar vontade de ganhar o mundo. Dança com ele e se resistir, conduza você. Não espere pela grana ou balada que nunca vêm. Olha que cor linda a dele mulher. Ainda bem que o que não falei, minha poesia escancarou. Aproveita o peito dele como sofá viu? Improviso umas mudançazinhas em casa e abstraio a falta daquele abraço. Deixa ele cuidar de você, que é bom nisso, mas tendemos a bancar a Mulher Maravilha sem querer. Embarca na viagem da criação dele, que rende heim? Agradece pois pari versos para entrar noutra coletânea. Fica sem fala não menina. Garimpa memórias de infância, comédia memorável e roubada inesquecível, mas vara madrugada trocando bonita. Tenho escrito pra processar o que não deu tempo. Evitar maquiar o que sente ou quer preta. Meu alívio é que minhas brincadeiras e corpo foram suficientemente explícitos pra sensibilidade dele. Abusa dessa memória fotográfica mulher. Não espalha mas rezo por alguém que leia meus olhos e movimentos com a mesma percepção aguçada. Deita e rola porque é uma raridade quem não ronca depois do amor moça. Minha cama dobrou de espaço, mas improviso uma conchinha com endredon e travesseiros. Enche o nariz desde o perfume amadeirado fresco pós banho até que não sobre cheiro nenhum e mesmo assim seja bom. Quebro um galho com pós barba no banho para brincar de banheira no chuveiro e engano o nariz com desodorante masculino. Cuida dele caprichadamente que ele te transborda. Estou cuidando de mim e com ele entendi que minha colega tinha razão: se me permitir vaidosa, não deixarei de ser inteligente. Embarca na piada em dupla que é uma pinga sem efeito colateral. Deixa escapar que calibro o bom humor só por ele ter dado a dica que dava para conversar semanas com bem humorada. Pede pra ele te massagear que a mão é leiga, mas tem potencial. Esqueço meus pés na grama ou água quente pra aliviar a saudade. Conduz o que gosta que eles curtem e até pedem. Vou assentando as vivências inesperadamente surpreendentes. Cria que com homem assim rende moça. Escrevo e até ganho elogio na oficina de iniciação literária. Se afoga no cheiro do creme de cabelo menina. Continuo me arrumando depois que os reparos dele reverberaram em mim. Se delicia que ele não liga pra futebol. Comenta o quanto apanho do DVD depois que ele se foi menina. Solta fogos de artifício que ele cuida da saúde mulher. Deixa escapar que desejo que ao contrário dos companheiros de sexo dure muito. Segura a língua que ele não fala palavrão.Tenho procurado falar menos depois que ele repassou por aqui moça. Come a unha não que é coisa de moleca. Tô expulsando a ansiedade da vidinha. Olha como ficam bonitos no espelho. Confesso que me arrepiava a coluna nosso reflexo nele moça. Senta no colo dele no meu lugar menina. Diz que sem ele distraio essa falta pirando atrás de freela que as contas urgem. Aproveita que a companhia dele no parque combina porque é louco por aventura. Ainda acho uma graça o quanto ele se preocupa com a pesca predatória do tubarão. Faz projeto em conjunto que viagem acordado a dois é idílica. Comenta que espero que a bronca passe e ele faça o cenário ou figurino das minhas peças. Adota os sobrinhos dele em meu lugar moça. Achava fofo ele falando neles, talvez por falta dos meus próprios. Ouve as lembranças da sogra por mim. Em off, mas essa eu quis conhecer, devo ter acordado, caído e batido a cabeça nalguma quina sem perceber. Pede o que tem vontade de ganhar, que ele tem cara de quando tiver oportunidade, aproveitar a lembrança. Me deu saudades de flores, anos depois de esquecer como era ganhá-las. Tem ciúme não menina, que se ele contar de ex é distração, não maldade. Mas faz de conta que não ouve da insuportavelmente interessante que confesso, cutuca a gastrite. Faz cafuné que a mão e a pele se entendem feito irmãos siameses. Avisa que a conexão de alma no fundo quer sim que vocês reeditem nosso projeto quase cinematográfico de felicidade.Mas lá no Jalapão e sem acesso á Internet pra colocá-la no outdoor online.