segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Reatando com o divino

A única coisa da qual não deveríamos morrer de excesso é o amor. Naquele dia, o osso do coração pedia para ser massageado. Há três anos não tinha coragem de por a mão no osso do peito, o esterno. E dessa vez, como classificou o namorado massoterapeuta da amiga yogue, botou energia além da conta: foi yang demais. Fez círculos com as pontas dos dedos, com a mão fechada massageou com os dois lados, repetiu as doses, foi para além do ponto em que cortam para cirurgia cardíaca. Quando fizeram nela no retiro de palhaço, bem no começo da faculdade, as lágrimas escorriam e batia o pé no chão de terra para suportar a dor. Agora, demorou um pouco para tocar um mal estar velho de guerra: o tranco que recebeu nas quedas da época do dente de leite. Cismou que vinha daí o grosso da carência nas relações, por sempre estranhar o acolhimento alheio dos tombos próximos. As lágrimas vieram. Mas desta vez, mais objetivas sabe? Foi para o banheiro. Viu o que a terapeuta disse há pouco tempo: era linda – mesmo com o que classificavam de beleza exótica. E achou que o colega do tantra tinha razão: o que tinha de mais especial nela, era o que chorava. E acordou tão flexível que topou ir à missa com a mãe, apesar de sentir-se budista há mais de sete anos.
Chegaram atrasadas e começou como criança a querer lixar a unha, sambar com os dedos na cadeira da frente, balançar o corpo. E como adolescente, quis questionar cada vírgula do roteiro que se projetava no telão, se irritou com demorar a voltar e quase nada mudar. Mas a adolescência é o prolongamento da infância e dá um descômodo para quem está nela. Lembrou da irmã: a gente tem que ter compaixão para as feridas dessa época que precisam de cura agora e lembrar o quanto não foi fácil na "aborrescência". Usou uma técnica quase meditativa: se apegou à recitação e não à necessidade cabeçóide que tem de esquadrinhar racionalmente tudo que seus olhos e ouvidos captam. É tão maleável em religiosidade nova... Não dá para ser na "velha de guerra"? E de repente viu para além da irritação de quase nada mudar desde que fez crisma, primeira comunhão, na era jurássica: era um ritual. Como quando ia ao seu centro e os mantras eram mais antigos que Cristo, mas a ideia era reconectar com os mestres ancestrais. Escrevendo, no dia seguinte, achou que a intenção podia ser tocar o coração – onde para os budistas mora a mente – e não mexer com o racional dela.
Olhou a igreja cheia de gente e viu que estava errada quando achava que eles não podiam ter o discurso paleozóico que agravada à terceira idade: tinha que atrair os jovens, pois os mais velhos iriam embora antes se a vida não mudasse a ordem clichê que se esperava dela. Se apegar à tradição funcionava por ali: a casa estava bem mais cheia do que já viu nos centros que frequentou – lembrou que eles eram menores, mas os templos, ainda mais detalhistas e suntuosos. Riu lembrando que a amiga carioca que conheceu no centro classificava o budismo de hobby de rico: menores e mais polpudas doações deviam dar conta dos templos super trabalhados. Já foi em centro com valores pré determinados para os ensinamentos. E o que ia agora tinha a liberdade de fazer a contribuição voluntária que pudesse. E a igreja continuava passando a cestinha de sempre. Devia dar certo, pois ela era familiar, continuava como quando foi meia dúzia de vezes, pois ainda era bem conservada. Achou digno o padre prestar conta das entradas e saídas da casa.
Quando falaram no papa, torceu o nariz, achava que era fascista, nazista. Ouviu sobre os jovens que vinham de fora e pensou se vinham estudar ou o que? Quis encontrar os colegas de bairro e lembrou das críticas dos que só iam à missa socializar. Como sempre, achou que as crianças compunham o mais divertido - tamanha a espontaneidade. Se interessou muito mais pelo sangue que pelo corpo de Cristo – afinal era uma devota de Baco nas empreitadas culinárias. Mas só socializaram o pão mesmo. Quando falaram em batizado teve que reclamar com a mãe que ela não estava no seu. Justificou que tinha que ser carregada. Não concordou com a passagem bíblica que falava em “não reclamar do salário” e lembrou dos amigos sociólogos que estudam o quanto a religião é eficiente para que as pessoas se mantenham em seus cabrestos. Mas lembrou de ter escutado quem entende que uma primeira tradução já perde 30% de seu conteúdo inicial. Ali devia ter pelo menos 60% de “desvirtuamento da mensagem original”.
O trecho “queimará a palha com fogo que nunca se apagará” chamou a atenção, mas não entendeu, teve que pedir explicação depois. Fez quase uma meditação: aproveitou as músicas para treinar ritmo com as palmas. Cismou que estava meio debochada no momento do louvor e fez como na yoga: relaxou para ficar confortável. Falou sozinha com o que entendeu e o que não compreendeu do que era dito, cantado. Mas lá pelas tantas, como diria o Osho “fizeram com que deixasse a mente esperando na árvore”. E aquela parte do corpo que parece ser só mística, acreditou de novo. Depois de mais de um mês e meio se sentindo “à deriva”, "sem ninguém por nós", "numa vida que era um engodo com alguns momentos de idílio".. Falou com o que havia de divino no universo, nela, disse o que queria, o que precisava. E no final “pegou o padre para Cristo”: tirou dúvidas, brincou, soube das novidades, fez sugestões. Foi acolhida como se fosse uma antiga frequentadora, foi bastante estratégico da parte dele. Para ele, não reclamar do salário tinha a ver com as pessoas que fazem baixo rendimento render, ao contrário de algumas que tiram salários melhores e nunca é suficiente. Lembrou da colega com salário mínimo, carro, barraco, filho... Ok, o pai dele paga praticamente tudo. O padre contou como enxugou as contas da igreja e ela pediu para ele dar oficinas desse milagre. Mas depois, investigando, ele só podia ser virginiano: a mãe dela também faz aquele milagre da multiplicação com qualquer coisa que entre em caixa.
Voltou com a mãe pela frente da maior favela de São Paulo, comemorou um pouco a vitória do Timão, mas os ouvidos cansaram e a imagem da manhã é a de um menininho com camisetinha do Corinthians tampando os ouvidos por causa dos fogos. Pena que a câmera não funcionou! Se divertem em tudo que é lojinha, mural, burburinho popular. Faz a raríssima e curadora sesta matutina. Mata a saudade de parentes queridos, namora com o tablet do primo e olha enviesado para o presente de loja com mão de obra análoga à escravidão – mas fazer o que, cavalo dado não se olha os dentes. Volta mergulhando numa dorzinha de quem desconfia não aguentar mais sonhos desandarem, queria abrir a porta do carro e voar para cessar aquela ladainha estúpida de sempre, dorme lavando o rosto, se perguntando "quem é acha que dá para aguentar mais expectativa indo para o ralo? Estou de novo ligando para o congestionado telemarketing do céu, ficando na espera e vai cair a ligação?" Mas acorda talvez com uma resposta divina: “você não sabe do que Deus está te livrando”. 

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