terça-feira, 6 de novembro de 2012

Quando nós ainda...

- Era das coisas mais previsíveis que amava nele. Como ficar a madrugada inteira brincando de Autorama, fazendo de conta que ainda estávamos na infância. - disse o gordinho que falava bem.
O cigarro circulou pela roda de amigos sentados no chão da praça.
- Nela não, gostava do menos óbvio. Como quando ela fugia ao roteiro previsível e não se besuntava de creme e perfume e tinha o cheiro dela mesmo. - o fofo era fora do padrão, mas "magnetizava" a maioria dali.
Ela, até então atraída pelo menos clichê da turma, tomou um solavanco: pô, bi... Toda a humanidade era concorrente! Recusou a oferta do cigarro:
- Depois que encontrei a respiração sem falta de ar, faço exercício respiratório até na fila do banheiro!
O gordinho bi até esqueceu de tragar com a personalidade dela dançando em meio à unanimidade pelo relaxamento fácil. Não resistiu:
- É verdade que agiliza o orgasmo?
- Bom isso já não depende só de mim. A não ser que a companhia da noite seja o dedo.
A roda se dispersou em risadas. Inesperadamente ela se acolheu nele:
- Tem outra blusa?
- Mas o frio passou.
- Quem está circulando ar coletivo pré aquecido pra dentro são vocês, não eu.
O gordinho a abraçou.
- Fico querendo sentir de novo aquele primeiro barato, dos dezesseis anos. - agora o acelerado era o saudosista.
- Só que nem você é mais o mesmo, nem a erva. - analisa a sarcástica.
- Na minha primeira vez, minha paixão de infância prometeu que até nosso amor ganharia outras formas. - relembra a mais tímida - Mas nunca senti nada!.
- Quando traguei pela primeira vez, meu pai ainda morava conosco e não precisava agendar nossos reencontros.- soluça o grilado.
- Conheci a maconha e Caraíva juntos pela primeira vez. Nunca haverá praia como aquela. - suspirou o que já dançava como se ninguém estivesse vendo.
- Selei uma amizade de adolescência com um baseado.- recordou a mais brava - Só que não nos vimos mais!
- Quando quero criar mais livremente, preciso de um beque. - divide a irriquieta.
- Só sei esquecer os lugares que não voltei e as pessoas que partiram com vinho. - conta a das tiradas inesperadas, ainda abraçada ao gordinho.
- Gente daqui a pouco teremos que passar um lenço e apagar o cigarro. - conclui a pé no peito da turma.
- Pode ser que encontre um fumo como o da minha adolescência...
- Se reencontrar o primeiro amor, acreditarei nele como antes?
- Podendo reencontrar meu pai sem bloquear agenda, não terá mais a graça de antes.
- Caraíva deve ter parado no tempo como aquelas redes que balançavam nas varandas em slow motion...
- Aposto que minha amizade dos catorze anos continua a mesma.
- O que estimula é a cada novo cheiro, bater outro barato e inventar de um jeito diferente.
- Como todo mundo resolveu divagar pra uma direção diferente, podíamos sair de fininho. - tentou o gordinho com a das sacadas impagáveis.
- Com ou sem erva?
- De cara limpa que deve ser até melhor.
- Sem nem um vinhozinho?
- Quem sabe?
- Só temo de antemão quando o próximo te convidar para apostarem corrida de Ferrorama.
- Ah, aposto que na primeira ocasião que te surpreenderem você também voa longe. - ele despistou.
Ele tinha razão.
Topou.
Mas se encheu de creme no dia seguinte. Só para se diferenciar.

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