terça-feira, 24 de novembro de 2015
Lapidando a Forrest Gump de saias
"Sou o pirata da perna de pau/ olho de acrílico"... Não cabe na música, mas o último quase um mês foi voltar ao velho tampão da infância de modo atualizado: grudar um acrílico no olho para não coçá-lo à noite - não por acaso tive um professor de física que nos aconselhava a não coçá-los até o orgasmo e olha que ele nem sabia que sou glaucomatosa. Nas últimas três semanas tive coceira da fita crepe, arranquei o tampão com o namorado acordando com o barulho e pedindo para recolocar e até acordei com ele na mão sem lembrar de tê-lo tirado. Mas diverti a Peteca jogando bolinhas de fita crepe pra que corresse atrás, amarradona. A única vantagem foi não ter colega de escola me chamando de pirata, eu brigando e ir parar no castigo. Perdi dois colírios, os alarmes não tocaram, descobri que esforço é muito mais que carregar peso, furei o repouso sem me ligar, depois também fiz de conta que não era comigo e... rezei. Tomei patada de gata. Estudei, desisti de curso com dor no coração, revi amigas mais preocupadas com minha rebeldia cirúrgica que eu mesma, perdi bolsas de oficinas, cansei mais revendo conteúdo que pondo a mão na massa. Tive um fiapo esperançoso pelo caminho. O olho deu uma sangradinha e a vermelhidão parte em suaves prestações. Adiantei as férias sem querer e alterno entre leitura, visitas, filmes e tédio. Atualmente me sinto feito o jogador Amaral do Palmeiras ou a Marta Suplicy pós botox visitando o CEU aqui perto, com um olho abrindo e o outro fechando. Começo o post nesse balanço para confirmar que uma vez jornalista, sempre jornalêra: nossa visão crítica beira o insuportável. Como meu inferno astral está acabando, estou naquela inevitável fase de fazer balanços, sejam lá quais forem. Não temos nem um mês útil pela frente mais. Já estamos cruzando com decorações natalinas, ouvindo ou lendo "boas festas". Me parece o primeiro em muitos anos em que as coisas melhoraram horrores: finalmente meu trabalho me parece significativo. Fico enlouquecida com burrocracia, como também fiquei em comunicação, mas ensinando, contando história, formando, editando livro, propondo projeto em grupo, volta e meia algum retorno muito humanizado faz a ralação toda fazer algum sentido. Esse que fiquei quase décadas procurando. Às vezes encontrava em algum retiro, mas sair das bolhas de espiritualidade e voltar ao "sanguenozoio" da comunicação desmoronava qualquer construção de paz de espírito. No jornalismo também elogiaram texto, me chamaram de argumentadeira, fui um razoável iniciadora de estagiários e assistentes com os quais ainda tenho contato e se deram bem, obrigada, mas... Tudo era corporativo demais para alguém tão passional e lúdica como eu. Tenho toda licença de ser brincalhona de ponta a ponta nas creches. Para alegria do coletivo, sento e quase faço psicografia de projeto. Os alunos são uma graça, as chefes das chefes e os professores também. Por ser insuportavelmente idealista ainda me pego sonhando só com oficinas, livros, contações e projetos, mas conversando com amigos que volta e meia se pegam passando o aperto dificultoso típico dos artistas, prossigo teimando na educação. E esta noite me deu um clique aliviante: se passei 18 anos instabilíssima entre o jornalismo e as assessorias, com todas obrigações de funcionário, mas sem direitos de um, é aceitável ficar estável na sala de aula pela primeira vez num longo e tenebroso inverno. Só acabei pegando me tornando a "Run Forest Run" sempre que ouço "vamos conversar". Às vezes nem é nada trash, mas pelos meus traumas, só quero começar tudo de novo, já que esse é meu vício profissional. Em meio às histórias me divirto com os pequenos e suas dúvidas. Poso meio ressabiada para foto, afinal quem sou eu pra essa badalação cômica? Às vezes enfio o pé na jaca e compro mais livros do que deveria. Descubro histórias afro iguaizinhas às da nossa tradição oral. A cultura popular bebeu ou foi parida da mesma fonte! E finalmente encontrei um coletivo para chamar de meu: temos decolado projetos que só eu e Deus não rolava. Dois livros que esperam há décadas para sair do computador ganharão o mundo. Ao menos as criações artísticas queremos mais é que vão pro abraço mesmo. Tenho viajado mais a descobrimento que a trabalho como em minhas temporadas de repórter e assessora. Após chegar ao estágio de buscar Tinder de ETs ou oficina para cura hetero, eu e minha "dupla", meu parça, o tal companheiro pros altos e baixos nos encontramos. Nos dispersamos às cegas um período significativo, mas agora estamos até realizando sonhos, nos escrevendo, ele me faz curtir ficar à toa em casa e eu o faço encarar mil programas "de quando em vez". Olhando à primeira vista somos diferentíssimos, mas depois de muita chateação e descoberta, conheço o que me parece relevante e nisso somos bem parecidos. Adotei uma gata, ponta firmíssima nessas jornadas de dois, três períodos trabalhando no laptop. Fiz as pazes com o irmão que adotei vida afora e já até nos revemos mais que no pré bate boca. Tenho consciência da limitação na quantidade de amigos, mas sou grata ao plus dos colegas "devezemquandários". Se há alguma providência divina, depois deu bater muito o fiofó na água, me encontrei numa série de espaços que batem com esse jeito idealista que já tentei mudar, mas acho que é defeito de fabricação. Essa é uma espécie de gratidão às avessas "energia criadora", mas se há como solicitar aperfeiçoamentos "universo gerador", preciso voltar a me exercitar, meditar mais, comer feito gente e cortar invasões bem intencionadas contra as quais já ensaiei diversas saídas. 2015 foi da colheita, do semear, ver brotar e cuidar contra chuvas e tempestades. É daqui pra arriba combinado Liga da Justiça? Com esse movimento "para o alto e avante", não posso chiar de ter entrado na faca pela nona vez. É sempre uma bênção para quem já teve déficit de sono aquela apagada estratégica da anestesia. Viver não é brincar de Pollyana? Ao menos tenho um porrilhão de histórias para contar.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Não é uma escolha, é quase um carma
Me identifico com uma tia que ficou trinta anos esperando pela aposentadoria para por a casa em ordem, mas quando essa merecida pausa chegou, ela continou na antiga contra lógica:
- Onde por isso aí que você está me perguntando? Jogue pelo meio da casa.
Ainda não relaxei tanto a ponto de me assumir caótica, mas ser bagunceira é uma saia justa na qual só se apertaram os que não tem ideia de como se encaixar no eixo como os outros mortais.
A gente sai de roupa do avesso e justifica "dizem que colocar sem planejar dá sorte".
Vive de roupa amassada e culpa o transporte: "naquela sardinha, quem se mantém na estica"? Mesmo que seja duas da tarde no domingo, saindo do metrô confraria linha verde.
Alguém te passa um e-mail importante, mas como você ainda está em "desmame do jornalismo", tem coleção de bloquinhos, quando poderia enviar o que o fulano precisa, como encontrar o bendito endereço eletrônico no momento em que pode passar a bendita mensagem?
Você anota na agenda, no celular e no agendão na mesa do escritório e ainda assim, às vezes não confere nenhum e confia no catzo da sua memória que tem dado pau há alguns aninhos.
Volta e meia cisma de usar roupas que podem estar na mãe, na amiga, no namorado, no irmão adotado... Só o Senhor saberia!
Por razões que só a astrologia explica, teima em ter uma bolsa e mochila: todas as ocasiões que precisar de um bilhete único, chave de casa, é preciso esvaziar tudo solicitando a proteção dos padroeiros de cabeças ocas.
Sempre há uma etiqueta dando bandeira que acabou de comprar aquela roupa e faz questão de sair com ela da loja e a velha na sacola, só podia pedir assistência e não sair por aí com o código da C&A "piscando em alto relevo".
O pé não ajuda, tudo machuca. Na era jurássica comprou uma meia que não fazia bolhas. Mas quando acha um pé o outro sumiu no mundo.
Quem vê pensa que a casa tem esse tamanho todo.
Aliás você pagaria um rim por um óculos com sinal sonoro, como os de encontrar carros no estacionamento.
Sempre "dá tchau" para a gata antes de sair e mesmo assim, outro dia a prendeu sem querer entre a janela e a rede.
Todos dizem que quando tiver filhos, os encontrará nos Achados e Perdidos.
Aliás, é uma campeã deles.
E por falar neles, o São Longuinho tem feito alcançar uma infinidade de graças.
Como a mochila esquecida com o "rim dentro" no Mc Donald´s da Vila Mariana.
Quando os frequentava.
Você é campeã olímpica de receber zap, e-mail, SMS e mensagem no Face começando com "você esqueceu aqui o/ a...".
Sua tia viciada em Renew e lipoaspiração acaba contigo "tem quase quarenta anos e não usa anti idade, nem faz banho de creme, arruma a unha ou fica com depilação em dia". Graças a ela descobriu que anti espinha também é anti idade. Volta e meia compra um para não passar por adolescente "com quase 40 anos", mas a menos que um monstro verde da Tasmânia emerja de sua pele, não lembra de usar. Já tentou anti olheira, mas ao descobrir que crianças branquinhas também tem, vive deixando o seu na prateleira.
Você também é PhD em usar calcinha da Bridget Jones quando sai com o homem da sua vida. A da vó, que não serve nem para o varal, quanto menos para passear com você por aí em dias possivelmente divertidos.
Pois bem, você só consegue se engraçar com homens generosos e que vejam nisso um charme displicente.
Ainda bem que dá aulas de artes e avalia "em processo", pois seria incapaz de receber e devolver uma prova, um execício que se pretende voltar à sala de aula, uma lição de casa. Tudo é proposto e criado em grupo no horário de aula. Se identifica profundamente com aluno com filho, mil bicos, vários turnos de trabalho e completamente sem tempo.
É preciso começar a tentar ver peças dos amigos no começo das temporadas, pois com os atrasos e confusões de endereço, só é possível conferir a última apresentação.
Aliás, em se tratando de rotinas escolares nunca foi capaz de dividir um caderno em várias matérias. Seus blocos de notas apenas anteontem passaram a ter marcas coloridas entre um curso livre e outra oficina.
Há vantagens? O jogo de cintura se torna imperativo: se não encontramos vermelho, vai verde, se não temos manjericão, vai orégano, se não chegamos à peça do primo, vai o cinema da esquina. Viramos os famosos "vamos? É pra já".
Suas patacoadas divertem familiares, vizinhos, amigos e colegas de trabalho. Como levar o CD de tango para a consulta médica no lugar da mídia com fotos da córnea.
Uma rotina de comunicação ajuda o dia a dia ordinário depois de quase 20 anos de redações e assessorias de imprensa: faz lista de pauta para consultas, ligações estratégicas com quem gosta, terapias, a fim de não dispersar demais. Funciona bem.
Dá sempre bandeira da desorganização? As pastinhas do computador pessoal e do e-mail no trabalho poderiam atestar o contrário. Afinal, chegou a ser vexatório ser tocada do expediente enquanto ainda tentava encontrar um documento ou imagem imprescindível.
Às vezes temos vislumbre de como poderia ter tudo em dia.
Como se deliciar numa aula adulta tendo pesquisado em casa e aprender em dobro.
De repente faz até sentido ter pagado os pecados como setorista especializada em TI por tanto tempo: era inviável sair para uma entrevista sem pesquisar previamente.
Nem que fosse no táxi. Aliás para isso que serve o trânsito paulistano.
Agora, cá entre nós: você já teve o insight de que toda essa BURROcracia nos impede estrategicamente de mudar o mundo para melhor e nossa missão pode ser dar perdido nelas?
- Onde por isso aí que você está me perguntando? Jogue pelo meio da casa.
Ainda não relaxei tanto a ponto de me assumir caótica, mas ser bagunceira é uma saia justa na qual só se apertaram os que não tem ideia de como se encaixar no eixo como os outros mortais.
A gente sai de roupa do avesso e justifica "dizem que colocar sem planejar dá sorte".
Vive de roupa amassada e culpa o transporte: "naquela sardinha, quem se mantém na estica"? Mesmo que seja duas da tarde no domingo, saindo do metrô confraria linha verde.
Alguém te passa um e-mail importante, mas como você ainda está em "desmame do jornalismo", tem coleção de bloquinhos, quando poderia enviar o que o fulano precisa, como encontrar o bendito endereço eletrônico no momento em que pode passar a bendita mensagem?
Você anota na agenda, no celular e no agendão na mesa do escritório e ainda assim, às vezes não confere nenhum e confia no catzo da sua memória que tem dado pau há alguns aninhos.
Volta e meia cisma de usar roupas que podem estar na mãe, na amiga, no namorado, no irmão adotado... Só o Senhor saberia!
Por razões que só a astrologia explica, teima em ter uma bolsa e mochila: todas as ocasiões que precisar de um bilhete único, chave de casa, é preciso esvaziar tudo solicitando a proteção dos padroeiros de cabeças ocas.
Sempre há uma etiqueta dando bandeira que acabou de comprar aquela roupa e faz questão de sair com ela da loja e a velha na sacola, só podia pedir assistência e não sair por aí com o código da C&A "piscando em alto relevo".
O pé não ajuda, tudo machuca. Na era jurássica comprou uma meia que não fazia bolhas. Mas quando acha um pé o outro sumiu no mundo.
Quem vê pensa que a casa tem esse tamanho todo.
Aliás você pagaria um rim por um óculos com sinal sonoro, como os de encontrar carros no estacionamento.
Sempre "dá tchau" para a gata antes de sair e mesmo assim, outro dia a prendeu sem querer entre a janela e a rede.
Todos dizem que quando tiver filhos, os encontrará nos Achados e Perdidos.
Aliás, é uma campeã deles.
E por falar neles, o São Longuinho tem feito alcançar uma infinidade de graças.
Como a mochila esquecida com o "rim dentro" no Mc Donald´s da Vila Mariana.
Quando os frequentava.
Você é campeã olímpica de receber zap, e-mail, SMS e mensagem no Face começando com "você esqueceu aqui o/ a...".
Sua tia viciada em Renew e lipoaspiração acaba contigo "tem quase quarenta anos e não usa anti idade, nem faz banho de creme, arruma a unha ou fica com depilação em dia". Graças a ela descobriu que anti espinha também é anti idade. Volta e meia compra um para não passar por adolescente "com quase 40 anos", mas a menos que um monstro verde da Tasmânia emerja de sua pele, não lembra de usar. Já tentou anti olheira, mas ao descobrir que crianças branquinhas também tem, vive deixando o seu na prateleira.
Você também é PhD em usar calcinha da Bridget Jones quando sai com o homem da sua vida. A da vó, que não serve nem para o varal, quanto menos para passear com você por aí em dias possivelmente divertidos.
Pois bem, você só consegue se engraçar com homens generosos e que vejam nisso um charme displicente.
Ainda bem que dá aulas de artes e avalia "em processo", pois seria incapaz de receber e devolver uma prova, um execício que se pretende voltar à sala de aula, uma lição de casa. Tudo é proposto e criado em grupo no horário de aula. Se identifica profundamente com aluno com filho, mil bicos, vários turnos de trabalho e completamente sem tempo.
É preciso começar a tentar ver peças dos amigos no começo das temporadas, pois com os atrasos e confusões de endereço, só é possível conferir a última apresentação.
Aliás, em se tratando de rotinas escolares nunca foi capaz de dividir um caderno em várias matérias. Seus blocos de notas apenas anteontem passaram a ter marcas coloridas entre um curso livre e outra oficina.
Há vantagens? O jogo de cintura se torna imperativo: se não encontramos vermelho, vai verde, se não temos manjericão, vai orégano, se não chegamos à peça do primo, vai o cinema da esquina. Viramos os famosos "vamos? É pra já".
Suas patacoadas divertem familiares, vizinhos, amigos e colegas de trabalho. Como levar o CD de tango para a consulta médica no lugar da mídia com fotos da córnea.
Uma rotina de comunicação ajuda o dia a dia ordinário depois de quase 20 anos de redações e assessorias de imprensa: faz lista de pauta para consultas, ligações estratégicas com quem gosta, terapias, a fim de não dispersar demais. Funciona bem.
Dá sempre bandeira da desorganização? As pastinhas do computador pessoal e do e-mail no trabalho poderiam atestar o contrário. Afinal, chegou a ser vexatório ser tocada do expediente enquanto ainda tentava encontrar um documento ou imagem imprescindível.
Às vezes temos vislumbre de como poderia ter tudo em dia.
Como se deliciar numa aula adulta tendo pesquisado em casa e aprender em dobro.
De repente faz até sentido ter pagado os pecados como setorista especializada em TI por tanto tempo: era inviável sair para uma entrevista sem pesquisar previamente.
Nem que fosse no táxi. Aliás para isso que serve o trânsito paulistano.
Agora, cá entre nós: você já teve o insight de que toda essa BURROcracia nos impede estrategicamente de mudar o mundo para melhor e nossa missão pode ser dar perdido nelas?
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Entrando na faca
Hoje é dia de entrar na faca. Nada de planejar aula, fazer projeto, editar livros que sairão por leis de incentivo, estrategiar formação para professores infantis, caçar editais... Devia ter madrugado para tomar café a tempo de ficar oito horas em jejum, mas quando o celular tocou devo ter dito "faz me rir, despertador", desliguei e afundei no sono de novo. Não é digno levantar às cinco da madruga. Tenho trauma desse horário desde os plantões do finado jornalismo. Quando finalmente consegui me livrar dos lençois - caramba, parece que eles "tem cocaina"´! - já não poderia comer, pois estouraria o tempo pedido sem nada no estômago. Só que...O médico era novo, o hospital e até o convênio! Para despistar um ensaio de ansiedade fui... Propor contações de história pela Internet. A pessoa quer ser empreendedora até na licença médica! A amiga da comunidade que ajuda a arrumar a fuzarca da casa chegou! Louvado seja Buda, posso me esquecer no home office! Quebro a cabeça para lembrar que página vi no Face de madrugada para propor projeto... Faço algumas prospecções, mas começo a sentir fome e ensaio pegar leve para o estômago não me enlouquecer. Daqui a pouco aparece pai, mãe e tia para me levar à internação. Quem semi nova como eu chega para operar glaucoma congênito com a torcida do Flamengo como acompanhantes? Dou todos os perdidos possíveis na parte de mim que quer ficar nervosa: falamos do caminho, das aulas, dos livros, da família... Lá no hospital quero sugerir contar histórias para humanizar a saúde. Sinto falta do trabalho que fiz pela Viva e Deixe Viver no hospital Cruz Azul. Me apaixono pela foto ou desenho de uma São Paulo retrô que já não existe mais na recepção. A bateria do celular morre e corta minha hiperatividade. Quando chamam pra enfiar minhas coisas no armarinho e por aqueles avental, touca e meia impessoais da sala cirúrgica, bem essa é a hora D. Só subindo na maca me deixo ficar nervosa. Chegam os anestesistas e já aviso:
- Tenho veia bailairna, deve ser de família, pois o primo Ignácio Loyola Brandão também tem. Se puder, usem agulha de bebê - tem que ser toda polida pra não se aborrecerem de você, pobre mortal, dar palpite na área deles. Levam três picadas, elas dançam, só conseguem me furar certeiramente dentro do antebraço, que doi mais que a mão ou atrás do cotovelo. Quando aparece o médico já piro: como ele pode vir tão animadinho assim pra me picotar? E se algo sai do planejado, como meu amigo oftalmo contou na residência que está fazendo? De onde raios ele arruma essa empolgação infantil? São escavações nada históricas, num olho de gente!
Ouço os anestesistas explicarem que farão a sedação tópica, só para ficar mais tranquila. Tudo entra em slow motion. Fico em estado de graça nesse estágio, parece barato, mas não de pinga, não consigo passar por isso à noite e tenho horror a ver ou ouvir a cirurgia, já que tenho trauma de lembrar de luz em cima de mim em mesa cirúrgica e gente de branco nas operadas beeeem baby. Capoto.
Volto com a corda toda, querendo fazer todas as perguntas do mundo, como se não tivesse deixado de ser jornalista. O médico me deixa falando sozinha e vai falar com a tia, a mais espertinha da família, acredita-se. As enfermeiras, sempre elas, humanas pra burro, trazem comida, proseiam. Gozado que há uma aviso para não usarmos adornos, mas acho que nossa necessidade de nos enfeitar é tão inata, que elas têm touquinhas coloridas, floradas, lúdicas. Reclamo deles se aborrescerem com perguntas, critico construtivamente a educação, até que alguém lembra que há três familiares ligeiramente ansiosos do lado de lá. A sensação do olho tapeado é como se despejassem areia antes de por gaze, mas já foi assim nas nas sete anteriores.
Volto pra casa implorando pela minha gata por perto, eles são tão terapêutcos e não pulam desgovernados em cima de nós, como os cachorros, mas a levam para minha tia, PhD em estragar felinos. Nos meus pais a ordem é repouso, ficar de barriga para o ar, mas negocio cachês e agenda deitada. Penso que para que aquele medico novinho me corte bem, ele treinou nos sem opção do SUS e me compadeço. E essa veia fanfarrona, que os anestesistas pegavam e ela sambava! Os colegas mandam sair do celular, mas o médico doido pra cortar mais um já tinha falado que se ficasse online, só não enxergaria a contento, mas também não desestabilizaria nada.
Cuidar de um pepino congênito é se acostumar às rotinas mais assustadoras: ser picotadas de tempos em tempos, anestesista tentar falar contigo na hora do rooonc, amigos e familiares meio pé atrás com a melhora e você fazendo e acontecendo pra dar perdido no ensaio de nervoso. Contanto que não me lembre mais de ninguém falando do meu quadril na maca cirúrgica, de luzes grandes em cima de mim e homens assustadores de branco, colaboro. Ao contrário das grávidas que temem estourar a bolsa, tenho medozinho dessa bolha do olho também se partir qualquer dia desses, mas faço de conta que não é comigo. Fazem um buraco controlado no meu olho, explicou uma médica amiga da minha mãe. Mais ou menos né doutora? A pressão sempre foi contida para não subir muito, só que nos últimos tempos ela só despenca! O olho vira uma uva passa assim, tem que estabilizar na unha de novo... E depois essa senação de meia pria de Ipanema na córna. Os pontos, ah, os pontos. Talvez tirem mais uns, só que no laser a gente até fica mais "de boas". Nessas sempre me pergunto: como é que alguém entra na faca deliberadamten?
- Tenho veia bailairna, deve ser de família, pois o primo Ignácio Loyola Brandão também tem. Se puder, usem agulha de bebê - tem que ser toda polida pra não se aborrecerem de você, pobre mortal, dar palpite na área deles. Levam três picadas, elas dançam, só conseguem me furar certeiramente dentro do antebraço, que doi mais que a mão ou atrás do cotovelo. Quando aparece o médico já piro: como ele pode vir tão animadinho assim pra me picotar? E se algo sai do planejado, como meu amigo oftalmo contou na residência que está fazendo? De onde raios ele arruma essa empolgação infantil? São escavações nada históricas, num olho de gente!
Ouço os anestesistas explicarem que farão a sedação tópica, só para ficar mais tranquila. Tudo entra em slow motion. Fico em estado de graça nesse estágio, parece barato, mas não de pinga, não consigo passar por isso à noite e tenho horror a ver ou ouvir a cirurgia, já que tenho trauma de lembrar de luz em cima de mim em mesa cirúrgica e gente de branco nas operadas beeeem baby. Capoto.
Volto com a corda toda, querendo fazer todas as perguntas do mundo, como se não tivesse deixado de ser jornalista. O médico me deixa falando sozinha e vai falar com a tia, a mais espertinha da família, acredita-se. As enfermeiras, sempre elas, humanas pra burro, trazem comida, proseiam. Gozado que há uma aviso para não usarmos adornos, mas acho que nossa necessidade de nos enfeitar é tão inata, que elas têm touquinhas coloridas, floradas, lúdicas. Reclamo deles se aborrescerem com perguntas, critico construtivamente a educação, até que alguém lembra que há três familiares ligeiramente ansiosos do lado de lá. A sensação do olho tapeado é como se despejassem areia antes de por gaze, mas já foi assim nas nas sete anteriores.
Volto pra casa implorando pela minha gata por perto, eles são tão terapêutcos e não pulam desgovernados em cima de nós, como os cachorros, mas a levam para minha tia, PhD em estragar felinos. Nos meus pais a ordem é repouso, ficar de barriga para o ar, mas negocio cachês e agenda deitada. Penso que para que aquele medico novinho me corte bem, ele treinou nos sem opção do SUS e me compadeço. E essa veia fanfarrona, que os anestesistas pegavam e ela sambava! Os colegas mandam sair do celular, mas o médico doido pra cortar mais um já tinha falado que se ficasse online, só não enxergaria a contento, mas também não desestabilizaria nada.
Cuidar de um pepino congênito é se acostumar às rotinas mais assustadoras: ser picotadas de tempos em tempos, anestesista tentar falar contigo na hora do rooonc, amigos e familiares meio pé atrás com a melhora e você fazendo e acontecendo pra dar perdido no ensaio de nervoso. Contanto que não me lembre mais de ninguém falando do meu quadril na maca cirúrgica, de luzes grandes em cima de mim e homens assustadores de branco, colaboro. Ao contrário das grávidas que temem estourar a bolsa, tenho medozinho dessa bolha do olho também se partir qualquer dia desses, mas faço de conta que não é comigo. Fazem um buraco controlado no meu olho, explicou uma médica amiga da minha mãe. Mais ou menos né doutora? A pressão sempre foi contida para não subir muito, só que nos últimos tempos ela só despenca! O olho vira uma uva passa assim, tem que estabilizar na unha de novo... E depois essa senação de meia pria de Ipanema na córna. Os pontos, ah, os pontos. Talvez tirem mais uns, só que no laser a gente até fica mais "de boas". Nessas sempre me pergunto: como é que alguém entra na faca deliberadamten?
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
"Nem de humanas, nem de exatas, sou de faxinas"
Não sabia muito bem como era arrumar irmão "semi nova". Acostumei mal e porcamente a comemorar uns irmãos passageiros aqui e acolá, coisa de filha única meio inconformada, mas desses assim de puxar a orelha quando estamos viajando rumo ao precipício, de brigar pela gente (e bater boca nem é muito a praia do mano aê), sacudir para ver a parte boa, inventar "naturebices" juntos, ajudar com trampo que se troca aos 45 do segundo tempo, repetir comida, mimar gata, meditar, desbravar a zona lost, redescobrir o centro que para mim ainda era uma incógnita, roubar cama, pintar o azulejo do banheiro de tinta impermanente da minha temporada ruiva "no estado de espírito", avisar dos retiros imperdíveis, suavizar das chutadas de pau na barraca "dazamiga", dos alunos, "dos mino", se sacanear, rir de bobajada, indicar conteúdo relevante nesse mar infinito de informações que é a Internet... Sei não, a isso tudo estava completamente desacostumada. Daí a gente se vê nuns surtos de filhauniquice, justo eu, me orgulhava de ouvir que não parecia, de caçar informalmente (ou nem tanto) esses manos que a vida não dá e mesmo assim a gente descola... Quando desencanamos e eles caem no nosso colo, não reconhecemos a tal bênção que para pedir, "protocolamos a solicitação em três vias, reconhecemos firma e entramos na fila". É que esse amor de mano, ainda que inofensivo, atropela a gente dum jeito que mandamos anotar a placa do caminhão. Mas depois do estrago OM NAMA SHIVAYA que com estas bobajadas do cotidiano não há de se perder muita energia! Ele faz parte do meu top 3 signos dificultosos, mas geralmente é do que se corre que se cai em queda livre no colo. Já fizemos faxina, já torcemos pra Copa, já empatamos a paquera alheia, já multiplicamos os amigos, já dançamos bêbados, animamos pra ensinar, brochamos também, conferimos peça, tomamos chuva, voltamos à infância no cinema, "alugamos" parceiros antigos de faculdade, militamos... Ele manda pra casa quando a teimosa aqui está caindo em pé querendo prosear na Praça Roosevelt... Tem um porrilhão de coisas que ele já me ensinou, só não sei se listo em ordem alfabética ou cronológica... Rarará! Mas acho que a mais surpreendente foi amar virginianos pé no peito. Feliz aniversário quase literariamente mano!
sábado, 1 de agosto de 2015
Aceita moeda de fora?
Colegas de uma profissão ligeiramente ingrata passam na roleta de um microônibus na grande São Paulo e... Quero dizer, um deles passa. A outra conta moeda, caça trocado na bolsa, cansa a fila atrás dela, preocupa o amigo que já arrumou lugar do lado de lá, até que encontra uma solução no mínimo esdrúxula para o impasse do dinheiro perdido entre bolsa e carteira:
- O senhor podia aceitar estes vinte centavos de euro?
- De que?
- Euro!
- Que diabo é isso?
- Moeda europeia.
- Minha senhora, essa moeda só vem, não volta, aqui não é casa de câmbio!
- Vale três vezes a nossa, da última vez em que cotei. Era uma recordação de viagem, mas...
- Mas o que?
- O senhor leva um amuleto de viajão esperado inesquecível que trará imensa sorte em sua vida!
- E eu lá sou místico?
- Pode começar uma poupança para rodar o mundo...
- Sendo cobrador na periferia? Sei...
- Na Argentina aceitam real, peso e dólar.
- Deve ser por isso que não saem da crise. E isso lá pode?
- Ah, dizem que é ilegal, mas parece que esta norma, lei, sei lá... Também não pegou.
- Ah, as leis também não pegam com os hermanos? Sei...
- Esta moeda traz o frio de Paris.
- E o que mais passageira imaginativa?
- O metrô de sonhos de Londres.
- Conte-me sobre seus devaneios turísticos.
- Os chafariz de Madri.
- Está começando a melhorar a paisagem.
- Os museus de Barcelona.
- Devem ser caros.
- As construções históricas de Roma.
- Preferia que você me desse moeda brasileira mesmo e mostrasse as fotos, que já está de bom tom.
- Tenha um pouco mais de olhar empreendedor! Poderão atender passageiros de todo mundo ampliando aceitação monetária na catraca!
- Gringos quase não visitam o ABC e se visitam, os amigos e parentes andam de carro ou táxi. Nunca vi falarem outra língua nesses corredores.
- Talvez só esteja faltando esse passo de começar aceitar moeda de fora.
- Deus me livre, começarão a perguntar em inglês, espanhol e aí sim que terei que me fingir de dorminhoco, pois não saberei responder!
- Moça, a gente precisa passar - pedem passageiros acumulando atrás da negociante persistente.
O colega de trabalho cansa e volta à catraca:
- É isso que falta cobrador?
- Obrigado!
A catraca destrava e ela quer saber:
- Ué, como sabia que só faltava...
- É sua especialidade empacar nesses centavozinhos finais de passagem. Vem, vamos perder o ponto.
E assim se vai uma tentativa de por em circulação o amuleto de 20 cents de euro, "carreador" de tantas lembranças de mochilão... Quer dizer, de pochete, pois professor é mais modesto na saída ao exterior.
- O senhor podia aceitar estes vinte centavos de euro?
- De que?
- Euro!
- Que diabo é isso?
- Moeda europeia.
- Minha senhora, essa moeda só vem, não volta, aqui não é casa de câmbio!
- Vale três vezes a nossa, da última vez em que cotei. Era uma recordação de viagem, mas...
- Mas o que?
- O senhor leva um amuleto de viajão esperado inesquecível que trará imensa sorte em sua vida!
- E eu lá sou místico?
- Pode começar uma poupança para rodar o mundo...
- Sendo cobrador na periferia? Sei...
- Na Argentina aceitam real, peso e dólar.
- Deve ser por isso que não saem da crise. E isso lá pode?
- Ah, dizem que é ilegal, mas parece que esta norma, lei, sei lá... Também não pegou.
- Ah, as leis também não pegam com os hermanos? Sei...
- Esta moeda traz o frio de Paris.
- E o que mais passageira imaginativa?
- O metrô de sonhos de Londres.
- Conte-me sobre seus devaneios turísticos.
- Os chafariz de Madri.
- Está começando a melhorar a paisagem.
- Os museus de Barcelona.
- Devem ser caros.
- As construções históricas de Roma.
- Preferia que você me desse moeda brasileira mesmo e mostrasse as fotos, que já está de bom tom.
- Tenha um pouco mais de olhar empreendedor! Poderão atender passageiros de todo mundo ampliando aceitação monetária na catraca!
- Gringos quase não visitam o ABC e se visitam, os amigos e parentes andam de carro ou táxi. Nunca vi falarem outra língua nesses corredores.
- Talvez só esteja faltando esse passo de começar aceitar moeda de fora.
- Deus me livre, começarão a perguntar em inglês, espanhol e aí sim que terei que me fingir de dorminhoco, pois não saberei responder!
- Moça, a gente precisa passar - pedem passageiros acumulando atrás da negociante persistente.
O colega de trabalho cansa e volta à catraca:
- É isso que falta cobrador?
- Obrigado!
A catraca destrava e ela quer saber:
- Ué, como sabia que só faltava...
- É sua especialidade empacar nesses centavozinhos finais de passagem. Vem, vamos perder o ponto.
E assim se vai uma tentativa de por em circulação o amuleto de 20 cents de euro, "carreador" de tantas lembranças de mochilão... Quer dizer, de pochete, pois professor é mais modesto na saída ao exterior.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Carta presse Menino que Cruzou o Meu Caminho e Mudou a Direção
É, não foi agora.
(não tem problema, ainda pode-se sonhar um bocado)
Dizem as más línguas que foi-se o tempo. Essas, hábeis em atingir feridas quase extintas, cobram, cortam alegrias, questionam o que não se responde.
Nem é por elas na verdade.
Hoje tem pontadas familiares, mas com outro peso.
Neste meio de semana, experiencio aquela simbologia cíclica de acatar perdas, sem metáforas.
De emoções que não sabia, mas te assaltam mais à queima roupa que contas, incertezas ou receios.
De sensações latejantes na intensidade de que você deva ser o cara mesmo. Esse com ar de ficção.
De desaguares pulsantes sem lógica, na linha "continuo feliz a despeito de remar contra maré".
Bom, sou especializada nisso.
De confirmar que numa suspeita meio poética, meio para lá do nosso controle, nos prontificamos de bate pronto.
Queria condensar num poema, mas menino é sangrar demais pra página de menos.
Criei mudanças imaginárias, falei com meu imaginário, realoquei tempos e pessoas, insisti mentalmente em cada vírgula das minhas convicções militantes.
Nada aconteceu.
Ou sim, duas machucadas meio previsíveis, meio óbvias, meio mais do mesmo. Em momentos vulneráveis feito pele queimada de sol.
Tantos macaquinhos dando piruetas no sotão - mas sei de onde vêm.
Quis te dar o presente mais elaborado que imaginamos nesta toada da cisma vã. Tá, volto aos puxões de orelha providenciais. Inda não me curo aqui.
Lembro que contigo e a Peteca na cama encontro uma plenitude onde está tudo que queria.
Ou nada como uma noite de aulas de artes para reabastecer.
Inda não sei bem de que.
É de estraçalhar aprender que se tinha o que precisava e se preciso de menos ralados, que vá de encontro à quietude. Outros universos raramente fazem conexão com o meu, meio etéreo, pouco terra.
Parafraseando Legião "já passou, já passou, quem sabe um outro dia".
Nesta madruga "aconchegantemente" fria, ainda não sei o que lateja mais: esfacelar uma ilusão cômoda, as léguas de compreensão de quem gosto, mas vive insiste em ligações pouco lúdicas, ou esta dorzinha de que não, não é tão simples quanto a mente criou.
A Peteca se encanta com a caneta dançando e me reapaixono por ela.
Foi mágico descobrir que apesar das condições inadequadas de temperatura e pressão, de menino você não tem nada.
Claro que um mundo de realizaçõezinhas nos aguarda.
Algo em mim imaginava que me partindo, a experiência maior do amor nasceria.
É de chorar pelos cílios descobrir que parceiro para todas as horas está tão perto...a ponto de tocá-lo.
O ano é novo e as emoções se reeditam!
(não tem problema, ainda pode-se sonhar um bocado)
Dizem as más línguas que foi-se o tempo. Essas, hábeis em atingir feridas quase extintas, cobram, cortam alegrias, questionam o que não se responde.
Nem é por elas na verdade.
Hoje tem pontadas familiares, mas com outro peso.
Neste meio de semana, experiencio aquela simbologia cíclica de acatar perdas, sem metáforas.
De emoções que não sabia, mas te assaltam mais à queima roupa que contas, incertezas ou receios.
De sensações latejantes na intensidade de que você deva ser o cara mesmo. Esse com ar de ficção.
De desaguares pulsantes sem lógica, na linha "continuo feliz a despeito de remar contra maré".
Bom, sou especializada nisso.
De confirmar que numa suspeita meio poética, meio para lá do nosso controle, nos prontificamos de bate pronto.
Queria condensar num poema, mas menino é sangrar demais pra página de menos.
Criei mudanças imaginárias, falei com meu imaginário, realoquei tempos e pessoas, insisti mentalmente em cada vírgula das minhas convicções militantes.
Nada aconteceu.
Ou sim, duas machucadas meio previsíveis, meio óbvias, meio mais do mesmo. Em momentos vulneráveis feito pele queimada de sol.
Tantos macaquinhos dando piruetas no sotão - mas sei de onde vêm.
Quis te dar o presente mais elaborado que imaginamos nesta toada da cisma vã. Tá, volto aos puxões de orelha providenciais. Inda não me curo aqui.
Lembro que contigo e a Peteca na cama encontro uma plenitude onde está tudo que queria.
Ou nada como uma noite de aulas de artes para reabastecer.
Inda não sei bem de que.
É de estraçalhar aprender que se tinha o que precisava e se preciso de menos ralados, que vá de encontro à quietude. Outros universos raramente fazem conexão com o meu, meio etéreo, pouco terra.
Parafraseando Legião "já passou, já passou, quem sabe um outro dia".
Nesta madruga "aconchegantemente" fria, ainda não sei o que lateja mais: esfacelar uma ilusão cômoda, as léguas de compreensão de quem gosto, mas vive insiste em ligações pouco lúdicas, ou esta dorzinha de que não, não é tão simples quanto a mente criou.
A Peteca se encanta com a caneta dançando e me reapaixono por ela.
Foi mágico descobrir que apesar das condições inadequadas de temperatura e pressão, de menino você não tem nada.
Claro que um mundo de realizaçõezinhas nos aguarda.
Algo em mim imaginava que me partindo, a experiência maior do amor nasceria.
É de chorar pelos cílios descobrir que parceiro para todas as horas está tão perto...a ponto de tocá-lo.
O ano é novo e as emoções se reeditam!
segunda-feira, 29 de junho de 2015
A Mulher que Rasgava Revistas nos Consultórios
A família a incentivou a ser "rata de banca" e ela devorava matérias de revistas. Era um perigo quando ia ao médico ou dentista, pois sempre enfrentava a lei de Murphy literária: quando encontrava publicações que não eram jurássicas, e chamavam tão rápido que mal lia os títulos. Daí não resistia: rasgava as matérias dos impressos, escondia nas bolsas e lia nos ônibus ou metrôs na volta. Não era possível acusá-la de ladra midiática assim, à queima roupa: era hábito dos familiares e é impressionante como a genética envia heranças pouco nobres. A tia também decepava revistas Claudia, Super Interessante e Galileu. Ultimamente se contentava com Seleções e Nationais Geographcs paleozóicas. Era uma aspirante a cientista, muito embora tenha modestamente varrido centros comunitários e passado em algumas linhas de produção. O hábito a tinha transformado numa "terapeuta da esquiva informal": quando percebia que parentes adentravam o limbo de assuntos polêmicos que renderiam brigas desnecessárias nas casas deles, fugia para um assunto que gostavam e terminavam o reencontro em paz. A sobrinha roubava matérias da Vida Simples, Viaje Mais, Rolling Stone, Cult, VIP, TPM, Piauí, Carta Capital, isso quando o abastecimento periódico dos consultórios ajudava. Se não houvesse escolha, substituía por Bons Fluidos, cadernos culturais de jornais amarelando, Isto É e em último caso, Nova ou Men´s Health. Quase escolhia médico assim: antes de marcar consulta, checava a linha editorial da sala de espera. Uma ex chefe preferia conferir no livro de credenciados os bairros nobres, preferencialmente um doutor com sobrenome judaico, assim garantia que ao menos estudados eles eram, já que se vangloriavam que "conhecimento ninguém tira dessa comunidade". Ela não. Ultimamente também verificava com a secretária se o médico desceria o cacete no Mais Médicos, caso contrário ia fazer manutenção ginecológica e por tabela sua gastrite era atacada. Andava em crise com os que classificava classe mérdia e se auto enquadrava como sub classe mérdia, muito embora os amigos a provocassem dizendo ser aspirante a esquerda caviar, com aquela mania de procurar médico holístico, quando o orçamento ajudava. Um dos primos ou tios juravam que era possível falar com ela de colostro a física quântica. Também lia os livros, mas esses demoravam mais a acabar, conforme a programação de sua circulação: se pegassse mais transporte público que carona no horário do rush, teria que se segurar mais e consequentemente conferir obras e folheá-las ficaria inviável nas idas e vindas modo lata de sardinha. O pai também foi maníaco midiático. Conta o folclore familiar que para "devolver à natureza" tinha que ler uma Globo Rural inteira, com perdão da simbologia escatológica. Eram em muitos irmãos, a casa só tinha um banheiro, nas manhãs de apuro para irem ao trabalho, brigavam pelos banhos e escovadas de dente nele (entre outras pautas reinvindicatórias), a ponto de quebrar cadeira um no outro. Aparentemente eram interessados e bem informados, embora de difícil convivência. A irmã mais nova era enlouquecida por Casa Claudia, Estilo e Casa & Jardim. Única abastada dos sete irmãos, tinha obsessão por construção, lipoaspiração e reforma, devia estar na quarta, se os familiares não perderam as contas. A que roubava matérias nos consultórios tinha começado com os gibis. Não a roubar, mas a ser nerd literária. Quando muito pequena, liam para ela, que saía recontando aos vizinhos, colegas e amigos, na fase anterior à suspensão precoce da infância das crianças para começarem na escola, então era natural estranharem:
- Mas vocês não alfabetizaram cedo demais?
- Ela não lê, decora e reconta.
Deve ter sido com uma ida conjunta em algum médico que a sobrinha começou a rasgar e roubar matérias dos consultórios. Eram ágeis. Bebiam uma água, iam ao banheiro ou aproveitavam cinco minutos de solidão na sala de espera para levar embora as páginas mais interessantes. Tossiam ou riam para abafar o barulho das páginas. Tinham um certo orgulho marginal de recontar essas peripécias, mas há um mês a mais nova rompeu a tradição familiar pedindo à terapeuta:
- Posso levar a matéria sobre Alexandre Nero?
Teve dúvidas entre o conteúdo dele e o que escreveram sobre o primo Ignácio Loyola Brandão. A "rádio família" logo circulou a adaptação da redistribuição forçada de informação recente. Desde então a tia larápia intelectual não fala mais com a sobrinha. Segue a vida...
Assinar:
Postagens (Atom)




