Como era de se esperar, as primeiras vezes foram trágicas. Tudo que consegui foi levantar alguns nomes, ver o que tinham trabalhado, do que sentiam falta, ensaiar um ou outro jogo cênico que envolvesse o desenvolvimento da liguagem e ouvir:
- Prô, dá aula do seu jeito.
No fechamento de notas e faltas, com matéria prima dos professores que me antecederam, saí com dores no pescoço e ombro e sentindo falta de fechar matéria - já que para isso tinha que lidar com mais palavras e menos números. Avisei a coordenadora:
- Não sei fazer contas!
- Nada que uma calculadora não resolva.
Ensaiei uma dança de roda com "tem areia no mar...areia"! Umas improvisações com teatro do oprimido contra a violência simulando brigas em trabalho ou escola depois duma matéria sobre alunas se pegando no pau dentro do ensino público no Fantástico. Discuti à exaustão até chegarmos em soluções pacíficas, pois quando questionava como resolver congelando as cenas que propunham, o que a maioria sugeria era:
- A gente grita: porrada!
Também pesquisei funk político do MC Da Leste para tentar criar uma proximidade com eles. Descobri que usávamos parte da letra deste músico nas passeatas ano passado, antes de virarem a reedição da "marcha com Deus pela família e propriedade". Vi orgulhosa os gracinhas da oitava interpretarem o gigante acordando, os policiais batendo nos manifestantes, a Dilma se transmutar em vários aspirantes a atores e eles cantarem o hino nacional. Até tirei foto e quis postar, mas do que me lembro de TV precisava de autorização de imagem, com menor é mais complicado e...passou.
No começo pedia para afastarem as cadeiras pois faríamos teatro, mas depois, quando terminava a chamada e levantava o olhar, já tinham deixado o centro da sala vago. Não escapa uma informaçãozinha deles, pois no primeiro ou segundo dia, quando contei que também fiz matéria e pedi que não pendurassem nas janelas, justificavam:
- Prô está pegando fogo na favela, você não é jornalista?
Consegui contar a lenda indígena de surgimento da noite e fazê-los reinterpretá-la com minha locução e estudantes das sextas fazendo as vezes dos índios, da Boiúna Cobra Grande, dos macaquinhos, do barco, do caroço de tucumã... Não entendia muito quando entrava nestas turmas e eles comemoravam, pois era dificil fazê-los se envolverem nas propostas. Mas ouvia aqui e ali que era a melhor professora, que era outro nível, que adoravam minha aula, pediam abraço, beijo, pra eu levá-los para outra sala e não sei o que mais - volta e meia queria brincar:
- Ah, vocês devem dizer isso para todas!
Fui tentando fazer um trabalho budista para não inflacionar muito o ego e devo sinceros agradecimentos à sangha (grupo de amigos budistas) do CEBB (onde medito atrás do Shopping Paulista), mas especialmente ao meu irmão que abuso de sua experiência, comida, gata, paciência e companhia semanalmente. Tinha muitas vezes a impressão de só fazer figuração lá na frente deles, mas ele garantia:
- Você passará feito fogo pela alma deles. Pelo bem e pelo mal.
Mas acho que os adolescentes acabaram fazendo o mesmo comigo. No ensino médio logo de cara pesquei a pista, acertei a mão e levei vídeos do Banksey, Gêmeos e Basquiat, pois trabalharam grafite, embora tenham me mostrado mandalas (no alto da minha ignorância em arte de rua, nunca vi estas duas modalidades de artes visuais conectadas).
Levei lá um projeto para contarmos as histórias dos estudantes, da escola e do bairro, pois achava que não nos entendíamos de não conhecer o que cada um vivia e também para trabalhar corpo, voz explorando a "contação" (já que viviam criticando o teatro, alegando vergonha ou que não sabiam, nem queriam), apropriação do espaço público e aquele movimento que não só a história oficial é relevante, mas também a sabedoria e experiência popular (pegando um pouco carona do que conheci sobre o Museu da Pessoa). Diziam não saber fazer. A sagitariana porra louca aqui foi de figurino, peruca, foto, livro, microfone, bolinhas sonoras, apito, contou histórias, deixou os meninos deitarem e rolarem de madeixas loiras de mentira, perdeu e reaveu o livro de Câmara Cascudo mas... Depois de uma semana, devo ter lido uma dúzia de histórias, se muito. Envolvido um ou dois professores na proposta. E depois de uma bola de papel no rosto, uma alergia monstro de pó de giz e um tapa no bumbum (que tinha vergonha de partilhar, parecia que a culpa era meio minha, muito embora sempre tenha ido entre maloqueira e informal, nem resvalando os visuais "Diana caçadora", não que isso fosse justificar a invasão, mas decotes e justos passaram longe nas minhas idas e vindas, vale o registro). Comecei a pensar:
- Paulo Freire não devia ter salas com 40 alunos quando escreveu seus livros.
Me ouvindo dizer uma ou outra barbaridade em sala de professor e engasgando com outras escutadas, me pareceu que não conseguiria dar todos limites que demandavam, que era "boazinha" demais para a malandragem deles, que até inventava aulas criativas, mas seria quase uma missão impossível avaliá-los dentro dessa visão de que não existe "arte errada", que meu emocional sucumbia à impossibilidade de "tourear" os preconceitos e dores que não conseguia aplacar deles, que ficava inacreditavelmente sem energia administrando as picuinhas entre alunos, cortinas, portas, cadeiras, mesas, celulares, malas, que alguma coisa que ainda não sei definir em mim não era "parruda" o suficiente para nadar contra a maré, que.. a miragem que surgiu foi um barco em que me meti a mudar de rumo e botar fé. Que meu coaching ficará feliz de me ver pensando a partir da prosperidade, apesar do meu histórico contrário.
E como tuuuudo neste samsara de meu Deus é mesmo impermanente, a alegria durou um tantinho assim ó: fui falar com os colegas de trabalho (que em sua maioria eram bacanas, mas como diz meu irmão, 90% do tempo ficamos com os alunos e entre 400, bem 60 se interessavam pelos meus vídeos e pedidos de jogos, vivências, improvisações...). Não queria ver os estudantes na saideira, só que acabei cruzando. Com aquela cara de tacho. A culpa é sempre uma perseguidora das mulheres. Temos escapatória? Não me senti apta às condições que não colaboravam... Acabo chegando à conclusão de que aqueles que mais precisam sempre ficam na necessidade, pois nos rendemos às condições atraentes. Que minha prima está certa, o capitalismo se apropria de tudo, inclusive de um sonho meio idealizado à altura da síndrome de Peter Pan da sagitariana que ficou meio sem graça com o que ouviu de amigos da área nos últimos dias. O estofo é frágil, mas como diz meu pai, a culpa não é exatamente minha, não fui bem eu que o produzi lá "nos meus primórdios", venho tentado melhorá-lo com umas meditações, trabalhos artísticos, voluntários e apoios aqui e ali, mas... cismei que já que aconselhavam "tocar o terror" e me via incapaz disso, sinto a educação pública como uma saara que já devia receber professor tarimbado, macaco velho, talvez de malandragem à altura ou acima dos estudantes. Tinha uma aflição absurda quando me virava para escrever a lição e os vídeos na lousa e quando voltava enxergava lixos voando e fazia "uma torcida organizada" para que não pegasse em ninguém, já que raramente percebia quem começava as barbaridades, só encontrava o acidente a caminho ou já finalizado. Palpito que só devia entrar quem tem visão de lince, sabe? Após um mês e meio tinha começado a ser chatinha também, confiscar figurinhas, farinha que queriam atirar numa aniversariante e desmanchar roda paralela à aula que reeditava aquela velha brincadeira "pera, maçã ou salada mista"? E pelo rosto roxo da menininha não foi difícil saber quem tinha sido beijada enquanto explicava diferenças entre teatro de rua, de empresa e no palco italiano. Ninguém pode dizer que os subestimei: levei vídeo da Marina Abramovic, Balei na Curva (que alegria dar as primeiras informações da ditadura), Pina Bausch... Quem se aproximou e conferiu tem aí uma "pochete cultural" para se entrosar com os mais interessantes que cruzar futuramente. Mas confesso que pegava leve demais nas perguntas depois de exibir e explicar o que selecionava. Tinha medo de não saber lidar com dificuldades mais ou menos alheias à minha matéria (de compreensão e redação, por exemplo). Apesar dos desabafos mútuos recorrentes, ouvia lá no fundo um apito: não me via naquilo a médio e longo prazo. Só que tive dor no coração de abandonar o barco. Pelos abraços, elogios, beijos, perguntas, risadas, ideias não divididas de excurção com estudantes na Cantareira e grupo de apoio às dúvidas típicas da idade, pelos incentivos, ansiados cafés (meu Deus, como se bebe pouco na sala dos professores: eu o procurava feito cafeinômaca ex repórter que espirrava bebia, ia ao banheiro bebia e emendava a água no café), pelos colírios que ensinavam física, pelas gracinhas da Lu, Nívea (essa pérola até os fazia silenciarem), Val e Viviane, pelo sonhozinho praticamente impossível do projeto da sala de leitura, pelas ajudas estudantis com os cabos na sala de vídeo, pelos que ensinei e arrancavam o material da minha mão para levar até a outra sala, pelos interessadinhos Natalia, Gabriel, Aldry, Arthur, Gabriela, Keren, Jenny, Geovana, Mayumi, Beatriz... Pena que não lembrarei de todos (isso pq diz a lenda que tenho boa memória...). Que falta fará o grupo Improviso, que começou a fazer teatro do absurdo sem nem conhecer Esperando Godot! Meu irmão bronqueou que quis ficar "no ponto" em 45 dias. Nem é bem isso. Sentia um pouco que quase nada interessava a maioria: vídeo, performance da professora, livro chamativo, a despeito das minhas dores nas costas levando, levantando e revisando material. Mas que bênção aquela liberdade de fazer diferente em sala com eles. E que ignorância da fonte que ouvi em pauta educacional condenando diretor não ver aula ou o governo só reconhecer por tempo de serviço e não resultado conquistado. Diretoria tem pai caçando aluno para atender, patrimônio sendo depredado, material faltando, professor doente, bomba estourando para administrar, falta de eventual, papelada para por em ordem, reuniões e capacitações para planejar, cumprir, realizar. Vai quando, de madrugada conferir aula do professor? E por tempo de serviço o professor não tem que ser reconhecido, tem que ser canonizado. A médio e longo prazo me pareceu rolo compressor demais: se sucumbe à falta de recursos, de disposição, de reconhecimento, de envolvimento, de interesse... Tenho uma aflição encroada das caricaturas do funcionalismo público que ouvimos mais que na realidade encontramos. É que uma aqui e outra ali chocam. A princípio não abalam. Mas andorinha sonhando, planejando, experimentando, pesquisando e propondo sozinha faz verão? A animada da professora da biblioteca disse que depois de ler o que fiz e escrevo, achou que não ficaria. Tem horas que me soa um carimbo: "arregou iniciante". Há coisas que só entenderei distanciada mesmo. Agora é tudo turvo, nebuloso, expectativa e...gosto de saudade e sonho abortado. Desculpa educação pública. Foi mal.
domingo, 18 de maio de 2014
domingo, 4 de maio de 2014
Faz um mês
Cheguei com minha pedagogia de botequim
eles foram dando pistas do que queriam
em empurrões, desenhos
gritros, abraços,
caneta na cabeça e elogios
Faz um mês
Numa tarde se envolvem na proposta
noutra enfiam a cabeça entre os braços
Numa noite perguntam sobre meu conteúdo
noutra escapam da sala
Faz um mês
Um divide paixões cênicas
outro desanima já na entrada
outra mostra as pinturas
outro questiona minha sobrevivência
outra dá pistas para ganhar atenção
outro estimula a desistir
outro se interessa pelo universo avesso ao dele
outra põe o preconceito na mesa
outra se mostra igualmente humana
outra é divertidamente irônica
Faz um mês
Tenho síndrome de abstinência de café
na ida ao banheiro, na procura de giz
na mexida no armário, na sentada para respirar
Faz um mês
Tem uns retornos mais rápidos
e descaradamente mais sinceros
Outras frustrações e pensamentos estreitos
sóbrios, entre um bolo e o lanche
Faz um mês
as informações se compartilham
que certeza não há quem tenha
grades e fechos lembram
teoria da arquitetura prisional
similar às dos hospícios
Faz um mês
minha letra continua caótica
indiferente aos cuidados ou atenção
o pó levanta uma falta de ar
velha de guerra
reaprendo a respirar
rezar mantra
praticar o nobre silêncio
Faz um mês
as ideias voam
fanfarronas
os espaços de troca
carecem de brechas
os recursos faltam ali
mas podem ser rearanjados acolá
Faz um mês
perco instinto maternal
entre os que dirigem carteiras
escalam cortinas
fazem social no corredor
arremessam lixos
saltam cadeiras
brincam de MMA infantil
Faz um mês
volto a me exercitar
feito Cazuza
correnteza acima
eles foram dando pistas do que queriam
em empurrões, desenhos
gritros, abraços,
caneta na cabeça e elogios
Faz um mês
Numa tarde se envolvem na proposta
noutra enfiam a cabeça entre os braços
Numa noite perguntam sobre meu conteúdo
noutra escapam da sala
Faz um mês
Um divide paixões cênicas
outro desanima já na entrada
outra mostra as pinturas
outro questiona minha sobrevivência
outra dá pistas para ganhar atenção
outro estimula a desistir
outro se interessa pelo universo avesso ao dele
outra põe o preconceito na mesa
outra se mostra igualmente humana
outra é divertidamente irônica
Faz um mês
Tenho síndrome de abstinência de café
na ida ao banheiro, na procura de giz
na mexida no armário, na sentada para respirar
Faz um mês
Tem uns retornos mais rápidos
e descaradamente mais sinceros
Outras frustrações e pensamentos estreitos
sóbrios, entre um bolo e o lanche
Faz um mês
as informações se compartilham
que certeza não há quem tenha
grades e fechos lembram
teoria da arquitetura prisional
similar às dos hospícios
Faz um mês
minha letra continua caótica
indiferente aos cuidados ou atenção
o pó levanta uma falta de ar
velha de guerra
reaprendo a respirar
rezar mantra
praticar o nobre silêncio
Faz um mês
as ideias voam
fanfarronas
os espaços de troca
carecem de brechas
os recursos faltam ali
mas podem ser rearanjados acolá
Faz um mês
perco instinto maternal
entre os que dirigem carteiras
escalam cortinas
fazem social no corredor
arremessam lixos
saltam cadeiras
brincam de MMA infantil
Faz um mês
volto a me exercitar
feito Cazuza
correnteza acima
sexta-feira, 18 de abril de 2014
De amor indefinível
Havia uma relação ali alérgica a rótulos. De tardes dos dois
rindo em caminhadas compridas para fazer inveja a mineiro que considera
“qualquer coisa menos que 450 quilômetro
pertim”. Almoços meio batizados de choro com chateação de amiga e consolo
do parceiro. Tardes “gogando” e mapeando como corrigir escolha enganada de
bairro, agora que o concurso a chamava para trabalhar do outro lado da cidade.
Dum apoio amplo, geral e irrestrito à mudança de área dela. De noites e tardes
cozinhando a quatro mãos, usando a colocação do avental como desculpa para se
abraçar e do preparo coletivo diluir qualquer assinatura individual nos pratos.
Dela gastando instinto maternal com a “gachorra” dele, a única que atendia
chamado pelo nome, se esparramava na barriga de ambos, ficava horas no colo de
barriga para cima recebendo cafuné e respondia conversa miando sem cansar numa
conversa que “mistura idiomas”. De filmes e peças em dupla para rir, chorar, se
divertir, emocionar ou ficar debatendo nos cafés sem pressa depois. Dele brecar
o desastre e a distração dela a cada buraco, cocô na calçada ou farol que se
abria, feito irmão mais velho. De contarem ou lerem histórias um para o outro
como quando eram menores e pediam “conta mais”! Ou quando ouviam “era uma vez”
e ficavam de olhos vidrados, ainda que “semi novos” para manter o encanto das
fábulas por muito tempo. De irem juntos ao hospital e ele brigar com a má
vontade da médica na hora de trocar receita, bem quando ela estava frágil
demais para bater boca com a doutora que a deixava falando sozinha. De
meditarem com a “gachorra” entre eles, tão desesperada por comida quanto a
gastrite dela. Dele segurar a mão da companheira de fim de semana quando a
amiga chorava na hora de ia dormir, com algum mal estar emocional vindo à toa.
Deles proseando e navegando de cuecas samba canção pela casa dele. De filme
dividido no sofá, com ele roncando da metade em diante. Dela oferecendo chá
depois do estômago dele reclamar por ter sucumbido ao pecado da gula. Da
dorzinha dela receber oferta de remédio. De chá natureba dividido. Dele a empurrar para a sombra percebendo quando
o sol a castigava nas longas caminhadas. De limparem a pia um do outro. De
compartilhar espera em rodoviária cheia na véspera de feriado. Dela aproveitar
para além de diminuir a água ralo abaixo na faxina periódica dele, ainda
refrescar o calor que a persegue. Dela caçar shampoo específico para o cabelo
dele. Dele tirar dúvidas de barba e sobrancelha com ela. Dele achar escova
dental pra ajudar a cabeça oca da amiga que “faz camping” na sua casa e esquece
de carregar o kit básico. Ele palpita para ela não emendar uma história amorosa
na outra e não sobrecarregar a alma de emoções de difícil processamento. Ela
tenta convencer que se diverte até quando os ensaios de paixão desandam, mas às
vezes não disfarça quando uma lágrima escapa furtiva. A dupla recolhendo rastro
de turista descuidado em trilha no meio do mato, consegue rir até em conversa
política, por mais vexatória que ela ande hoje em dia. Ela banca a cupido com
ele, que prefere deixar que a existência faça sua parte. Ele formiguinha de tão
fã de doce, que às vezes ela limpa a boca dele do açúcar que ficou para trás.
Ela maluca por “bobajitos” salgados. Com interlúdios lights entre uma “enfiada
de pé na jaca” e outra. Uma ansiosa, um tranquilo. Um caseiro, uma irriquieta.
Uma tagarela, um tímido. Uma estupidamente carinhosa, um introspectivo. E nos
derrapões das escancaradas diferenças de temperamento vão modelando um sonho “quase
realidade” de mochilão em conjunto. A ponto de amigos em comum, consciente ou
inconsciente, terem ciúme ou inveja branca de tanta intimidade brotando feito
água nascente, dessas ansiadas que nem conseguem se conter. Qualquer rótulo
descolaria rapidinho, de tanto lugar incomum que compõe esse amor de irmãos
reencontrados depois de encarnações se procurando. Perguntando aqui e ali o que
são, como se definem, numa ciumeira e curiosidade fora de lugar que brota
constrangedoramente sem esperar. Numa madrugada de prosa comprida ao fone com a
prima, Pilar define o que é de Acir: “desnamorada”. E julga o amigo sua alma
gêmea neutra. Parceria bonita, fofa e triste ao mesmo tempo. Como todo amor que
fecunda umas saudades “de quando em vez”.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Ode passional à maresia
Quando meus olhos acordam no mar esta quarta, é como se Itararé dissesse: como você aguenta tanto tempo longe? Quem disse que aguento? - devolve minha paixão meio mineira, que quando revê esse mundão azul, quer perguntar para quem estiver por perto: "me ajuda a ver"? Uma vez ouvi uma amiga da faculdade dizer que tinha acordado a fim de ir para a praia e desceu a serra. Guardei anos essa sangria desatada de falar com o mar a sós, tive que driblar boa vontade familiar para chegar a São Vicente só eu e Buda, como quem avisa: "agora maresia, somos eu e você". O bate e volta teve episódios dignos de sessão da tarde escrachada: condicionador vazando na bolsa, o bom e velho açaí dando enjoo às dez e tanto da noite, a fechadura me
trancando na kit net a manhã toda incomunicável... Lá para a hora do almoço fiz como uma colega de faculdade e atravessei a avenida meio de pijama: de biquini e cueca samba canção. Na praia, tudo se releva. Meu parceiro "macumbeiro" perguntou ontem que oferenda fiz à Iemanja e no auge da minha falta de verba, surrupiei uma flor e fui soltando suas pétalas com minhas necessidades. A princípio, as que voltavam me faziam pensar que estavam sendo rejeitadas Mas uma das mais importantes foi mar adentro. E a poluição pode ter atrapalhado o resto de ir para seu rumo certo. Isso é que pode ser chamado de "precisão" de mar: embarquei com
folha, tranqueirinhas não identificadas e tudo o mais! Perdõa pele! Ao sinal de um caiçara recuei: aquela não parecia uma região favorável ao mergulho, próximo do teleférico da praia. Que dor no coração dele não estar funcionando! Fui me afastando, lá perto da Ilha Porchat me animei e tchibum! Tem coisas que só a maresia cura. Até o cheiro dela já aliviou coisas ontem. Estava quase irresistível o ímpeto de me meter num quiosque e pedir peixe. Por isso fugi para uma padaria e almocei um omelete. Paulistano demais... Mas o açaí na tigela caiu tão pesado, enjoando na véspera que foi quase uma precaução. Não demandei somente: agradeci também. Privilégio o marzão assim, quase só meu, sem concorrência, como gosto da igreja, eu e Deus, sem cantoria, a torcida do Flamengo concorrendo pelo ouvido do Senhor. Os moradores devem ter me estranhado falando com Iemanjá, soltando pétalas aqui e ali. Mas a marca de sol no colo voltou quase como um aviso enigmático: ouvimos, ó criança crescida! Quando somos muito branquinhos, sempre descobrimos algum lugar que não foi protegido o suficiente. Tentei contatar amigos aqui e ali, mas era uma noite e tarde só azul e eu. O mar manda lembranças. Ele é como Deus: eles sem nós, coninuam tudo que são... Já nós sem os dois... Adoece a alma.
trancando na kit net a manhã toda incomunicável... Lá para a hora do almoço fiz como uma colega de faculdade e atravessei a avenida meio de pijama: de biquini e cueca samba canção. Na praia, tudo se releva. Meu parceiro "macumbeiro" perguntou ontem que oferenda fiz à Iemanja e no auge da minha falta de verba, surrupiei uma flor e fui soltando suas pétalas com minhas necessidades. A princípio, as que voltavam me faziam pensar que estavam sendo rejeitadas Mas uma das mais importantes foi mar adentro. E a poluição pode ter atrapalhado o resto de ir para seu rumo certo. Isso é que pode ser chamado de "precisão" de mar: embarquei com
folha, tranqueirinhas não identificadas e tudo o mais! Perdõa pele! Ao sinal de um caiçara recuei: aquela não parecia uma região favorável ao mergulho, próximo do teleférico da praia. Que dor no coração dele não estar funcionando! Fui me afastando, lá perto da Ilha Porchat me animei e tchibum! Tem coisas que só a maresia cura. Até o cheiro dela já aliviou coisas ontem. Estava quase irresistível o ímpeto de me meter num quiosque e pedir peixe. Por isso fugi para uma padaria e almocei um omelete. Paulistano demais... Mas o açaí na tigela caiu tão pesado, enjoando na véspera que foi quase uma precaução. Não demandei somente: agradeci também. Privilégio o marzão assim, quase só meu, sem concorrência, como gosto da igreja, eu e Deus, sem cantoria, a torcida do Flamengo concorrendo pelo ouvido do Senhor. Os moradores devem ter me estranhado falando com Iemanjá, soltando pétalas aqui e ali. Mas a marca de sol no colo voltou quase como um aviso enigmático: ouvimos, ó criança crescida! Quando somos muito branquinhos, sempre descobrimos algum lugar que não foi protegido o suficiente. Tentei contatar amigos aqui e ali, mas era uma noite e tarde só azul e eu. O mar manda lembranças. Ele é como Deus: eles sem nós, coninuam tudo que são... Já nós sem os dois... Adoece a alma.
quarta-feira, 19 de março de 2014
O que a chuva me diz
Os trovões te anunciam e ao contrário dos meus vizinhos corro ao teu encontro. Me ressinto da avó me abençoando antes desse banho natural. Ao contrário daquela época, em pouco tempo embaixo de ti já tenho frio. Antigamente pulava nas poças, agora passo por elas sem tanto estardalhaço. Vejo os funcionários do conjunto correndo pras garagens, como faço quando o sol está esturricando. Quando cai é que evito as coberturas.
A tranquilidade com que enche cada espaçozinho nas calçadas e estacionamentos me reaviva um conselho velho de guerra do meu primo: "se fez o que tinha a seu alcance, deixa o barco fazer a curva do rio: se tiver que voltar retornará". E então deixo paixões meio esquizoides descerem com a correnteza. Tem um rio perto de casa, mas morto de indústria e esgoto. Na falta do mínimo essencial de natureza, é em tua queda que me refugio.
Devia cair sempre que estivesse em polvorosa com a ansiedade de minhas procuras profissionais. É no friozinho que sinto debaixo de ti que deixo escorrer essa sangria desatada, que como guia volta e meia me faz por os pés pelas mãos. Espero até que a lavagem seja também interna.
Peço encarecidamente que ponha as ideias em ordem: criação 1, 2, 3... Tanto a escrever, produzir, propor... E um gestação criativa se interpõe à outra, sem que no fim das contas consiga parir nenhuma.
Os vizinhos fecham as janelas. Gosto tanto de ti que quando vem, me esqueço que se não fizer o mesmo, lava meu chão, os lembretes, a luminária e a roupa que esperava que secasse.
O cheiro que sobe com tua passagem mistura asfalto e umidade. Acho que vou ao teu encontro esperando relembrar a mistura de aromas da terra vermelha, tua queda e café do norte do Paraná e por consequência, matar as saudades do meu avô. Só a memória provoca esse golpe de lembrança seletiva e sigo tentando apaziguar a falta que faz viajar para onde está o resto da família.
Os bichos onde moro se escondem bem quando desce. Não encontro um gatinho, pomba ou cachorro. Sinto falta de andar com o Bidu e lamento o sequestro dele para a casa dos meus pais. Meu bichinho mesmo se chacoalha todo quando voltamos destes passeios molhados. Não deve curtir tanto quanto eu.
Passo no parquinho que desconfio ser ISO 9001: os adultos não tem ideia como brincar nessas geringonças pós modernas. Devia ter feito outro percurso, podia curtir a balança antiguinha lá de baixo. Mas sabe Deus porque vim para estas bandas. Roteiro previamente alterado pro próximo banho gelado na rua.
O relógio me mostra que preciso voltar para o banho anterior ao compromisso de logo menos. Como quando pausamos para as atividades artísticas, os problemas continuam lá na retomada posterior deles, mas um respiro, por mais curto que seja, dá uma distanciada das dores e sob nova visão, elas voltam ao seu tamanho devido. Minha antiga vizinha tinha razão: banhos gelados são um anti depressivo e tanto, Naturais ou não. Valeu São Pedro!
A tranquilidade com que enche cada espaçozinho nas calçadas e estacionamentos me reaviva um conselho velho de guerra do meu primo: "se fez o que tinha a seu alcance, deixa o barco fazer a curva do rio: se tiver que voltar retornará". E então deixo paixões meio esquizoides descerem com a correnteza. Tem um rio perto de casa, mas morto de indústria e esgoto. Na falta do mínimo essencial de natureza, é em tua queda que me refugio.
Devia cair sempre que estivesse em polvorosa com a ansiedade de minhas procuras profissionais. É no friozinho que sinto debaixo de ti que deixo escorrer essa sangria desatada, que como guia volta e meia me faz por os pés pelas mãos. Espero até que a lavagem seja também interna.
Peço encarecidamente que ponha as ideias em ordem: criação 1, 2, 3... Tanto a escrever, produzir, propor... E um gestação criativa se interpõe à outra, sem que no fim das contas consiga parir nenhuma.
Os vizinhos fecham as janelas. Gosto tanto de ti que quando vem, me esqueço que se não fizer o mesmo, lava meu chão, os lembretes, a luminária e a roupa que esperava que secasse.
O cheiro que sobe com tua passagem mistura asfalto e umidade. Acho que vou ao teu encontro esperando relembrar a mistura de aromas da terra vermelha, tua queda e café do norte do Paraná e por consequência, matar as saudades do meu avô. Só a memória provoca esse golpe de lembrança seletiva e sigo tentando apaziguar a falta que faz viajar para onde está o resto da família.
Os bichos onde moro se escondem bem quando desce. Não encontro um gatinho, pomba ou cachorro. Sinto falta de andar com o Bidu e lamento o sequestro dele para a casa dos meus pais. Meu bichinho mesmo se chacoalha todo quando voltamos destes passeios molhados. Não deve curtir tanto quanto eu.
Passo no parquinho que desconfio ser ISO 9001: os adultos não tem ideia como brincar nessas geringonças pós modernas. Devia ter feito outro percurso, podia curtir a balança antiguinha lá de baixo. Mas sabe Deus porque vim para estas bandas. Roteiro previamente alterado pro próximo banho gelado na rua.
O relógio me mostra que preciso voltar para o banho anterior ao compromisso de logo menos. Como quando pausamos para as atividades artísticas, os problemas continuam lá na retomada posterior deles, mas um respiro, por mais curto que seja, dá uma distanciada das dores e sob nova visão, elas voltam ao seu tamanho devido. Minha antiga vizinha tinha razão: banhos gelados são um anti depressivo e tanto, Naturais ou não. Valeu São Pedro!
quinta-feira, 6 de março de 2014
Ensaio da travessia
Ela despenca da cama em frente ao laptop depois de um fim de feriado meio ursa hibernando. Está quase fazendo uni-duni-tê de como tirar o atraso dos projetos, mas o escritório começa a rodar. Tenta ir ao banheiro, mas as pernas dobram quando deviam ficar retas. Como na vez em que desmaiou dois anos atrás, os fones se recusam a completar a ligação. Se arrasta sentada à porta para destrancá-la. Editar os fones das amigas para chamadas a cobrar exige uma concentração sobre humana, pois o teclado do celular também roda. Pede que uma avise sua mãe. Nem entende bem o que diz à outra. Parece que avisa que vai empacotar. Se agarra ao travesseiro. Deitar parece mais assustador, então se senta. Acha que está indo embora e lembra da mãe que cisma que só ela e a tia acham a morte "a maior viagem". Lembra lá de uma palestra budista ou outra e do enrosco que é se agarrar na vida que se esvai. Respira. Ok, vamos embora. Aos 45 do segundo tempo se apaga a uma amizade. Bem, podia ser pior: quando a amiga planejou se matar, pensava na saudade que sentiria dos lençois, travesseiro... Arruma a mesa da cozinha de forma a dizer "foi isso que tomei" e ainda põe as receitas pra não parecer que se auto medicou. Isso exige um esforço absurdo, pois sua casa dobra de tamanho. É só uma manhã, mas parece durar dias. Estranha que não passa o tal filminho da sua vida na hora H, mas respira, acha que alguém que já foi vem buscar. Cisma que não fala coisa com coisa, mas os pais entendem na hora do socorro que o apartamento está virando de ponta cabeça. Procura a "irmã vizinha", que já estava no trabalho e a tia dela vem tentar ajudar. Dá a senha e a pasta em que começou mil versos, crônicas e livros, tem a cisma de que está de partida mesmo. Fala que não vai ao médico de camisola. Pede pra se desculpar pra quem ligou. Caramba, nem na hora de ir embora perde esse catzo dessa mania de se desculpar. Vai aos pais, o médico recomenda ao telefone dormir, é reação de três tratamentos distintos "dando congestionamento" interno. Horas depois, com a sensação de terra firme, planeja que não trancará mais a casa, terá sempre crédito no diacho do celular e desbloqueará ligação pro celular no fone fixo. Mas gozado, na hora H não lembrou do livro que não publicou, da viagem que não fez, só do filho que não teve. Eita mente fanfarrona!
terça-feira, 4 de março de 2014
Os filhos do Carnaval
Como já fomos concebidos sob confete e serpentina, temos ligeiro bode de bloco de rua. Saímos num e "já tá bom demais da conta, sô". Mas também nos recusamos a fazer "lição de casa" ou tocar vida prática. Trabalha-se o mínimo necessário, mas somente em caso de sangria desatada. Folia-se uma cota obrigatória, que é pra não fazer feio de ter vindo ao mundo em pleno "esquindô, esquindô". Recebe-se uns amigos que é a atividade mais sensacional que já inventaram nesse mundão de meu Deus. E de preferência corre-se de hospital "sem hermano cucaracho", que é pra não passar uma dose dispensável de raiva (ou comparece ao PS com seu "heroi da madrugada", quando o choque evita de rodar a baiana, que é a resposta merecida de médica preguicenta que não pode seguir orientação da farmacêutica por ser "pouca coisa abaixo de Deus"). Medita-se doses homeopáticas. Não se perde da amiga, que é pra não escrever desesperada pra Deus quando ela ligar pra lá de Bagdá e vocês estiverem a léguas de distância, sem dinheiro uma da outra. Fica-se horrores na horizontal. Engole-se TVzinha de quinta categoria por razões que só a paixão ousa explicar. Confere-se com a mãe que deve ser filha do Carnaval, foi feita num feriado, mas o sono urgindo impede uma procura com mais acuidade, afinal, é o feriado mais longo do calendário, onde se desculpa todo movimento bicho preguiça irreversível. Faz-se contatos imaginários de 2o grau pela benta Internet, mas os camaradas web podem estar treinando pra aprontar filhos do Carnaval e a gente releva, se entregra pra essa força meio Dorival Caymi, em que se pára de ouvir a Vila do Sapo histérica, com seus funks e sambas de sempre. Cachorros incomodam os que fazem filhos do Carnaval. A mãe estranha tanto sono. Mas os filhos do Carnaval não. Farão os melhores tratamentos pra cútis: abraçar Morpheu. Os filhos do Carnaval ainda lamentam as estratosféricas distâncias da cidade e os dois dias querendo fugir pra casa do amigo pra conferir se a gatinha sobe na barriga de novo. Os filhos do Carnaval criam sua própria fantasia em memória dos bailes infantis, caracterizados de Pierrô em clubes família, onde ainda não se agarrava a três por quatro. Os filhos do Carnaval desconfiam que não deviam negar uma folia e que Capricornianos podem estar entre eles. Mas o barato de tratar três coisas ao mesmo tempo é menos periculoso que encher a lata na rua. Os filhos do Carnaval se ressentem do namorado doente. Cama também te amo e estou quase chegando. Guenta a bronca. Arrumar o quarto? Não inventa camarada, que coisas cotidianas não se resolve no Carnaval. Filhos do Carnaval imaginam que deitariam e rolariam no maior bloco do mundo, de Recife, preferencialmente entre primos. Mas já ficaram com claustrofobia da gentarada em plena São Paulo, menos muvucada. Alguns filhos do Carnaval se percebem "semi novo" e mergulham nos lençois que é pra não desperdiçar água salgada num feriado tão profano e ao mesmo tempo, bento pra caraca..
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