quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Travessia


E entre tantos sorrisos
Sem esperar, o seu
Faltando um pedaço
E mover mundos e fundos
para fazer com que sorrisse de novo
e falasse mais
e fosse protagonista
onde quer que fosse
E meses e meses atrás
a mutilação da dor
E a briga
para salvar
a mais bonita curva do ser humano
Subitamente um assalto
de curiosidade, petulância e desejo
para que fosse restaurado
apesar da nova fase da vida
E quem salva essas brincadeiras,
conversas e trabalhos
se não os profissionais de branco?
Uma antiga peça tem razão
deixe que as fotos fiquem velhas
nem é o caso de apagar o passado inteiro
mas editar essa distorção do brilho exagerado delas
deixar em sépia
só um quadro na parede
como na poesia do Drummond
com teia e poeira
talvez dificuldade de lembrar
A incômoda travessia entre as recordações
e de repente em meio à urgência atual
troco os pés pelas mãos
por ainda estar na prateleira errada

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Gastrite sentimental

Ela não precisava saber que ele será pai três meses e meio depois da separação. Nem duvidar da amizade de quem contou como quem passa uma receita de bolo. Muito menos questionar os pedidos, promessas e adiamentos tão racionalmente construídos nos anos anteriores. Lembrança indesejada que ele contou ter pedido um filho da cor dele, com ele como pai, muitos anos antes. Recordação indigesta da mãe dele jurando que já se gostavam na infância, batendo papo, aos pés da cama, enquanto as demais crianças voavam em rasantes estripulias pela casa. Podia ficar surda para a voz dele contando para a avó do amigo do atraso, que acharam que dessa vez o herdeiro vinha, mas não tinha sido naquela ocasião. Adoraria não sentir vontade de quebrar em pedaços cada skate que passava perto dela desde então. Justo agora que este era o segundo esporte mais popular, perdendo apenas para os marmanjos correndo atrás da pelota no gramado. Não queria pensar para a definição daquele mal estar, queria sumir com a sensação que não tinham palavras para a transferência super sônica de sonho. Já sentiu algo que não tinha nome, cor ou cheiro quando ele tinha pedido para não procurar mais, para não perturbar a nova... mulher? Ficante? Namorada? Não interessava, queria que fossem felizes na Patagônia, mas sem participar disso, nem à distância. Não se conformava dos homens não ficarem amigos depois das histórias acabarem ou demorarem tanto para conseguir isso. Justo os dois que tinham esse amor de repescagem desde a época dos dentes de leite. Só o músico foi capaz de ficar amigo na sequência do fim, mas eles são seres à parte, criaram um mundo próprio, como os piscianos. Para que desconfiar que as horas extras noturnas e de fim de semana tinham motivação amorosa e não capitalista? Podia sumir com a quase certeza de que quando o outro tem ciúme, ele mesmo quer ou já faz algo meio transgressor. Não tinha que duvidar de uma paixão que deixava sensações físicas insistentes e incômodas, marcas nos tecidos da casa e rendeu tratamentos nos últimos 24 meses. Não por acaso paixão queria dizer suportar forte sofrimento. Desnecessário concluir que isso era patologia e não amor. Um filmezinho de quinta categoria traz o flashback que podia ser apagado dele perdendo o sono quando soube que as entidades do candomblé previram que tinha nenê por vir. Lamenta não ter apagado do computador a foto dele com o filho da amiga no colo . Acha sem sentido  voz dele querendo revê-la quando ligou uma vez chorando por outros grilos e já não estavam mais juntos. Definitivamente não precisava rever tudo em slow motion, o efeito que ele usava em seus free lancers e abortar os sentimentos mais confusos e contraditórios pela segunda vez em três meses e meio. A amiga tem razão. Quem dera nossa vida fosse um retrovisor sem visão traseira. Como na volta da viagem à cidadezinha com visual de antiga ferroviária e neblina londrina.

Do Mesmo Tecido da Infância


Ainda somos as mesmas
que enterrávamos passarinhos no campo
pois principalmente os animais
vão para o céu
Alguns filhos, algumas lágrimas
Dores que já marcaram a pele
Medo que mudou a cor do cabelo
Uma ou duas páginas publicadas
Alguns amores desfeitos pelo caminho
Um cão que faz as vezes de filho
E não recebe a atenção devida
Ou um filho que tira de letra
o que tira o rebolado do adulto
Umas paixões ensurdecedoras
Umas amizades que se esvaíram
Mas ainda somos as mesmas
que enterrrávamos passarinhos no campo
O respirar cheiro de mato
que cura todas as feridas
Cursos terminados à ferro e à fogo
Outros abandonados com dor no coração
Saudades mais ou menos esquecidas
Viagens emergenciais
outras adiadas e tão sonhadas
Algumas impensadas para contar aos netos
Ainda somos as mesmas
que enterrávamos passarinhos no campo
e acreditamos quando nos prometem
um amor como na época
dos dentes de leite
Saudade doída da família
que tem cheiro de café, chuva e terra vermelha
Uma fortaleza dissimulada segue adiante
segurando a queda da água salgada
Mas às vezes deságua...
Numa exposição de grafite
Ainda somos as mesmas
que enterrávamos passarinhos no campo.
Francine Brandão

Leia o mural de recados do prédio...

...desconsiderei os avisos e de repente me vi presa embaixo do balcão do computador, de camisetão de dormir, com o pintor pendurado na minha janela aberta devido ao calor. Se estivesse na cozinha ao menos oferecia comida. E no escritório? Pergunto se ele quer "tuitar" a pintura desta manhã? Meu cachorro não aceita a invasão aérea e late para o alpinista das tintas. E eu ali, descendo da cadeira, mais sem graça do que nunca, inventando conversinha pra boi dormir e o tempo passar mais rápido:
- Tem que ter coragem para fazer rapel nesta janela heim cara?
- A gente acostuma!
Será que demora demais para pintar este lado da parede? Minha coluna vai gritar daqui a pouco os maus tratos de ficar torta na cadeira disfarçando a falta de calça do pijama depois desta noite dormindo no quarto transformado em sauna.
Podia ser pior. Quando morei perto do metrô com uma colega do centro budista, uma manhã ela acordou com a manutenção abrindo a janela. Já pensou pegar a gente dormindo com o traseiro para a lua, quer dizer, para o sol? Mico campeão de todos os tempos.
- Ah, se quiser tirar esta rede de proteção fique à vontade! Me pendurei, mas não consegui: a inquilina caprichou para segurar o filho dela... Não faço ideia como retirar...
- Pode deixar, a gente pinta devagarzinho, com mais capricho!
Demoradamente? Ah, céus, passarei a manhã escorregando para baixo do computador. Tão sem graça que já até tinha esquecido o que buscar na Internet. Ria sem jeito para o cachorro deixar de latir para o pintor e fazia contagem regressiva para o martírio acabar.
Cem anos depois, de janela do escritório livre, tento correr para o banheiro. Preciso de estratégia de guerra para me movimentar nesta casa que se transformou no Big Brother: agora é a janela da sala que escancara o outro pintor.
Nunca, nunca mais deixo de ler o mural de recados do prédio!

domingo, 16 de setembro de 2012

O Homem que Não Dorme

Ele é porteiro num trabalho, segurança em outros dois, marido de aluguel, dá aula de matemática particular, mas... Em uma semana, dorme sete horas. Diz que sono é coisa de mulher, que precisa do "de beleza". Cuida da filha, vai ao Sesc, deve namorar, mas não precisa dessas pescadas prolongadas dos pobres mortais. Foi objeto de estudo de dois programas públicos de tratamento de sono. Tem metabolismo oito vezes mais acelerado do que o normal.
Deve ter curiosidade como é acordar lembrando do sonho. Roncar. Se irritar com passarinho quatro horas da manhã na janela. Barulho de funk quando quer descansar. TV que não deixa pregar os olhos, já que para o homem que não precisa dormir, nada disso incomoda.
É quase o homem que vive na região do sol da meia noite, país sem luz por um período do tempo. Mas passa por isso no Brasil mesmo. E com os mais chegados ainda deve tirar sarro: "dormir é para os fracos".
Os dias devem ser compridos para o o homem que não dorme. A família, os amigos, colegas e parentes precisando ressonar como a maioria da humanidade, de 24 em 24 horas, em média por oito horas. A TV, ainda que por assinatura, deve entendiar depois de um tempo, que mesmo pagando o repeteco é garantido.
Perde-se a noção dos dias e horas sem precisar dormir. Relógio torna-se um acessório fundamental. Precisa tomar cuidado para não acordar os outros com torpedos ou ligações. Esquece da vida emendando uma coisa na outra. Não lembra que mulher, filho, tem hora e fecham para balanço como quase todos.
O homem que não dorme estranha a colega que lamenta não precisar consertar seu sono, pois é uma nova mulher desde que começou a descansar de verdade, dividir sonhos com amigos e parar de bater o carro. Ele não. Abstraiu. Afinal, como diria o Tancredo, para descansar teremos a eternidade. Ou a lá Fassbinder "quando morrer descanso".
Ele também tem que se monitorar para não começar a pendurar quadro ou fazer barulho de madrugada. E pensar que luz de dia deve irritar quem precisa dormir à noite. Não é o caso do homem que não dorme, que nem uma hora por dia tem precisado.

Condenada à bota e à melissinha

Quando diz que tem os pés meio índios, só ficam bem descalços, ninguém leva a sério. Ganhou sapatos lindos, que tem tia e prima de bom gosto, generosas e consumistas, mas são todos "paisagem": tem que ir no colo e voltar no carro. Quando não fazem bolhas nas laterais, cansam na sola. Então terá que para todo o sempre usar "melissinha genérica" no calor e bota no inverno, que são os que não fritam o pezinho. O pior é que o plástico, uma das únicas coisas a não arrancar pedaço em dias quentes, dá o maior chulé. Tudo o que queria era um pé que socializasse com qualquer bico quadrado, courino, salto largo, bico arredondado... Enfim! Esta é a saga dos pés "tupi".

domingo, 9 de setembro de 2012

Paixão budista

As avós têm razão. Não adianta apressar o curso do rio, ele segue seu próprio ritmo. Numa cadência própria, à revelia de qualquer desejo inquieto. Uma lembrancinha com ar indígena passou os últimos dois anos aguardando comigo o momento do curso do rio vir a meu favor. Este presente e um gosto de surpresa e expectativa. Mensagens meio perdidas pela impessoalidade da Internet. Reencontros desencontrados. E anos depois, a música mexe com as inquietações mais fundas, rende debates, nova peça, discussões que poderiam varar a madrugada, não fosse a escassez da condução pública. Posições libertárias tão similares. A concordância com o mesmo mestre indiano. Cafuné e abraço. Dedos que dançam com cabelos. O primo está certo: depois que fez o que tinha que ser feito, deixa fazer a curva do rio, se tiver que voltar, retornará. É lugar comum, mas verdadeiro: quando menos se espera. De novo o gosto, já era de se esperar, mas... Renovado. O aconchego. Pela primeira vez, olhar o movimento que provoca em minha energia e entender: a paixão é praticamente por mim mesma. Não ver muita diferença entre um toque ou outro, mas entender: é a inteligência zodiacamente previsível que embriaga. Agitar trabalho em conjunto. Filme antigo, com novas cores. Ligeiro distanciamento. Como quem entende de cinema e vai à sala escura analisando luz e som, perde-se um pouco a graça, mas fica-se menos refém do sentimento, tão familiar e ao mesmo tempo tão novo. Depois de tanta prosa eletrônica, bateu na retina diferente. Uma visão menos nublada, nem tão adolescente, de óculos mais limpos. Mas nem por isso, menos interessada. Reencontro adiado, gosto de criança com o pirulito tomado da boca. A cor, o som, são padrões repetitivos. Eternamente irresistíveis. Sinceridade o suficiente para não perder os pés do chão, não disparar em vertigem convulsiva. E ainda assim, experimentar a saudade mais clichê do mundo. Como cantaria Legião Urbana: "...vamos fazer um filme"? Vontade de pedir para ouvir as cordas em vibração íntima e intransferível. A incerteza sem pressa.