Não, não era aquele ar de “árabe
de meia tigela” que despertou aquele encantamento coletivo depois do trabalho
artístico feito em conjunto. Afinal, tinha ascendência espanhola. Bem, tinha um
ar latino ligeiramente irresistível. E depois daquela parceria... Parecia bom
demais para ser verdade: tinha seu pezinho na arte – contribuiu lindamente com
o figurino e a música, mas como nós mortais, mantinha-se com as raízes na
vidinha cotidiana que nos atropela – no caso, o trabalho meio pé no chão
demais, que paga as contas que chegam religiosamente em seus vencimentos, sem
piedade. Os papos sobre arte varavam madrugada – como é irresistível ouvir quem
gosta demais ou entende muito de qualquer assunto, mas essa é uma típica
opinião de “fofoqueira profissional” – que adora dar nova roupagem para as
belas histórias e passar adiante, com a devida proteção das origens. Ainda
fazia um trabalho voluntário admirável, desses que dá vontade de largar tudo e
embarcar rumo à África como missionária. Também praticava triátlon. E tinha gatinhos!
Como se não bastasse, jogava no mesmo time delas, o dos que estavam um tanto
quanto traumatizados com longos relacionamentos e tinham tendência a reinventar
as relações nas próximas oportunidades. Enfim, uma raridade.
O trabalho coletivo saiu
exatamente como previsto – a mais ansiosa se viu do lado de cá do balcão,
sempre tão crítica, ouvindo as observações, nem sempre construtivas, de uma
bancada mais cruel do que as dos famigerados TCCs (Trabalho de Conclusão de
Curso) – antes tivesse passado por elas, que dentro das palavras ela estava
mais em casa, do que dependendo de
terceiros e precisando descentralizar as tarefas.
O quarteto que preparou o
trabalho prometeu uma saída para comemorar, fosse qual fosse a nota, mas o
reencontro de todos nunca veio, que a agenda dos hiperativos é mais disputada
que a de político em véspera de eleição. Duas desta turminha insistiram “sem
querer querendo” naquela predileção. E numa noite sem álcool, regada somente a
ideologias socialistas amorosas, borbardearam
o celular do disputado rapaz, mirabolando
estrategicamente e com antecedência, torpedos inteligentes o suficiente para
fazê-lo morder a isca, que não mandariam nada explícito, óbvio... Eram mulheres
densas e faziam jus a isso.
“Mulheres woodyallianas sonham com curta de amor comunitário e desconfiam que
teria o olhar enquadrado para filmá-las” – ele, que tinha escolhido o jazz dos
longas favoritos deste cineasta para a apresentação, saberia de bate-pronto
quem escrevia, pensaram elas. Mas que nada! Ele respondeu para o celular novo
de uma delas: “Divertido...Mas quem é”?
Não foram muito criativas na
resposta: “Adivinhe quem é de toda sua galeria de inspirações”? Ele ainda
chutou, mas foi bola na trave: “Clarice”? As duas arquitetaram a resposta desta
vez “Nada de ‘A Hora da Estrela’, estamos mais para Pina Bausch e...talvez a
bonequinha de Amelie Poulain”? Todas obras e filmes já debatidos por todos, em
noites regadas a vinho de quinta categoria.
O retorno dele foi mais
promissor: “De repente... Não tenho padrões”. Uma delas, a mais espoleta e de
casa nova, deu praticamente um “cheque mate”: “Então seja bem vindo ao
endereço... Pizza com vinho”? E correu para o banho e todo o ritual feminino de
“embonecar” uma mulher. A outra já desconfiou que estava promissor demais para
acabar como no romance de Simone e Sartre.
Bingo! A resposta foi uma marcha
a ré: “Estou muito longe... Se o convite continuar válido para durante a
semana”... A mais realista já emendou: “Como somos pedestres típicas, digo, pé rapadas, o ‘finde’ é mais
tranqüilo... Mas vamos combinar – só não vale falar e não se encontrar como
alguns cariocas”. Lá para as tantas, o moço mudou de ideia: “vinho com
artistas... Tô quase mudando meu destino de hoje”.
A que estava uma boneca, mas
sabia que o restrito horário dos ônibus faria com que a outra zarpasse logo menos, não resistiu:
“Amelie está virando abóbora e Pina, bela adormecida... Mais cedo por conta de
condução... Lembra”? A amiga “pé atrás” voltou para casa, mas a outra atendeu o
curioso no dia seguinte e quebrou o mistério, confirmando quem era a
proprietária do aparelho. Ela ainda mandou outros torpedos, mas ele acabou cortando o barato dela.
Já a outra, cinéfila de
carteirinha, tirou uma foto do cartaz de um longa e mandou o convite para
assistirem pelo celular, terminando com “beijos onde você quiser”, mas soube
mais tarde pela melhor amiga dele que fotos não chegavam ao aparelho do rapaz.
Semanas mais tarde, os dois ainda combinaram de andar no parque num sábado, mas
em cima da hora ele pediu desculpas pelo cansaço, desmarcou e perguntou se ela
se chatearia. Como esta perde o amigo, mas não a piada, se saiu com esta
“Paciência né? Espero que nos
reencontremos ainda nesta encarnação”. Depois, não resistiu e corrigiu: “pensando
bem, só perdôo com jantar à luz de velas” e ele, no muro: “haha... Está certa”.
Sem ter ideia se aquela era uma resposta promissora, comprovou sua veia de sarrista incorrigível: “Fique tranquilo
que eu não mordo, só com segundas intenções, mas não tem reclamação no Procon”.
Ficou no vácuo. E claro, querendo descobrir onde encontrar um “workshop
intensivo de entendimento da alma masculina”.
É, a prima da artista para a qual
ele não “cortou o barato”, mas também não atendeu mais as ligações tinha razão:
“relacionamento hetero é como jogo de pique e pega. Só mando um torpedo ‘onde’?
pra começar o jogo quando estou muito animada”. Mas ela não combinava com este
estilo. Gostava das mensagens mais brincalhões ou metidos a intelectual. E numa
manhã de absoluta certeza que concluiu - depois de meia dúzia de namoros, só
podia bancar o filósofo: “tudo que sei, é que nada sei”, teve um insight
providencial: ELE FUMA!
Tinham saído tantas vezes, tinha
esquecido as escapadas dele em direção às calçadas ao ar livre pra saciar o
vício. “Que alívio”, suspirou. “Se tudo desandar, faço como a raposa da
história em que ela desdenha as uvas que não alcança: ‘eu nem queria um
namorado cabeça, charmoso, voluntário e atleta mesmo’”.
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