domingo, 28 de abril de 2013
Curte a chuva enquanto ela cai
Deixa ele se esparramar na sua vida sem afobação. Diz pra ele que só me perdi na ansiedade pois homem que repara em detalhe desconcerta. Ouve ele que o conteúdo é afrodisíaco. Conta o que leu, escutou, assistiu ou viajou que é quando os laços se fazem mais charmosos e nostálgicos. Cozinha junto que é sexy e cria conexões sensoriais e saudosistas. Fala que queria ter acertado um pão para ele. Ensina o inglês que não deu tempo por mim. Avisa que aprenderei bike pois ele lembrou o quanto adoro vento no rosto. Repara no cenário das peças no meu lugar. Dá um toque que verei mais documentários e tentarei não sentir falta do que ele achou. Confere as exposições de grafite e gravura com olhos infantilmente curiosos a dois. Confessa que me arrependi de ter parado de desenhar traumatizada com régua e esquadro no curso técnico da infância. Alonga antes de subir na moto por horas e aprecia a paisagem menina. Abre o jogo que queria ter tirado foto da minha primeira viagem de motoca e registra as de vocês antes que façam falta. Aproveita os amigos dele no meu lugar. Ri com ele que parece piada, mas até as amigas se acostumaram mal à companhia dele. Compartilha tuas aventuras e se arrisque com ele como eu sonhei moça. Divide que meu mochilão está em planejamento e ainda projetarei fotos das minhas visitas na parede como ele fez com as deles para me dar vontade de ganhar o mundo. Dança com ele e se resistir, conduza você. Não espere pela grana ou balada que nunca vêm. Olha que cor linda a dele mulher. Ainda bem que o que não falei, minha poesia escancarou. Aproveita o peito dele como sofá viu? Improviso umas mudançazinhas em casa e abstraio a falta daquele abraço. Deixa ele cuidar de você, que é bom nisso, mas tendemos a bancar a Mulher Maravilha sem querer. Embarca na viagem da criação dele, que rende heim? Agradece pois pari versos para entrar noutra coletânea. Fica sem fala não menina. Garimpa memórias de infância, comédia memorável e roubada inesquecível, mas vara madrugada trocando bonita. Tenho escrito pra processar o que não deu tempo. Evitar maquiar o que sente ou quer preta. Meu alívio é que minhas brincadeiras e corpo foram suficientemente explícitos pra sensibilidade dele. Abusa dessa memória fotográfica mulher. Não espalha mas rezo por alguém que leia meus olhos e movimentos com a mesma percepção aguçada. Deita e rola porque é uma raridade quem não ronca depois do amor moça. Minha cama dobrou de espaço, mas improviso uma conchinha com endredon e travesseiros. Enche o nariz desde o perfume amadeirado fresco pós banho até que não sobre cheiro nenhum e mesmo assim seja bom. Quebro um galho com pós barba no banho para brincar de banheira no chuveiro e engano o nariz com desodorante masculino. Cuida dele caprichadamente que ele te transborda. Estou cuidando de mim e com ele entendi que minha colega tinha razão: se me permitir vaidosa, não deixarei de ser inteligente. Embarca na piada em dupla que é uma pinga sem efeito colateral. Deixa escapar que calibro o bom humor só por ele ter dado a dica que dava para conversar semanas com bem humorada. Pede pra ele te massagear que a mão é leiga, mas tem potencial. Esqueço meus pés na grama ou água quente pra aliviar a saudade. Conduz o que gosta que eles curtem e até pedem. Vou assentando as vivências inesperadamente surpreendentes. Cria que com homem assim rende moça. Escrevo e até ganho elogio na oficina de iniciação literária. Se afoga no cheiro do creme de cabelo menina. Continuo me arrumando depois que os reparos dele reverberaram em mim. Se delicia que ele não liga pra futebol. Comenta o quanto apanho do DVD depois que ele se foi menina. Solta fogos de artifício que ele cuida da saúde mulher. Deixa escapar que desejo que ao contrário dos companheiros de sexo dure muito. Segura a língua que ele não fala palavrão.Tenho procurado falar menos depois que ele repassou por aqui moça. Come a unha não que é coisa de moleca. Tô expulsando a ansiedade da vidinha. Olha como ficam bonitos no espelho. Confesso que me arrepiava a coluna nosso reflexo nele moça. Senta no colo dele no meu lugar menina. Diz que sem ele distraio essa falta pirando atrás de freela que as contas urgem. Aproveita que a companhia dele no parque combina porque é louco por aventura. Ainda acho uma graça o quanto ele se preocupa com a pesca predatória do tubarão. Faz projeto em conjunto que viagem acordado a dois é idílica. Comenta que espero que a bronca passe e ele faça o cenário ou figurino das minhas peças. Adota os sobrinhos dele em meu lugar moça. Achava fofo ele falando neles, talvez por falta dos meus próprios. Ouve as lembranças da sogra por mim. Em off, mas essa eu quis conhecer, devo ter acordado, caído e batido a cabeça nalguma quina sem perceber. Pede o que tem vontade de ganhar, que ele tem cara de quando tiver oportunidade, aproveitar a lembrança. Me deu saudades de flores, anos depois de esquecer como era ganhá-las. Tem ciúme não menina, que se ele contar de ex é distração, não maldade. Mas faz de conta que não ouve da insuportavelmente interessante que confesso, cutuca a gastrite. Faz cafuné que a mão e a pele se entendem feito irmãos siameses. Avisa que a conexão de alma no fundo quer sim que vocês reeditem nosso projeto quase cinematográfico de felicidade.Mas lá no Jalapão e sem acesso á Internet pra colocá-la no outdoor online.
terça-feira, 16 de abril de 2013
O que crio sobre Marcela...
Acordou com o gato dando uma rasante sob sua cabeça. Não deviam ser seis da manhã ainda e ele já dava sinais de ter barbarizado a casa. Marcela não teve tempo de se espreguiçar: o nariz dela indicava por bem dar um trato na casa, pois à tarde encontraria as amigas do Frank na tal roda de criatividade. Não conseguiria ser nada criativa deixando tudo de pernas para o ar.
Como sentiu lá no quarto, o pipi cat venceu. E o Eros Ramazoti - fala a verdade: quem é tão criativa para dar nome a um filhote? Pois bem, ele batizou ao menos três cômodos. Não via a hora dele tomar a última vacina e poder ser castrado. O irmão veterinário jurou que depois disso essa marcação de território acabaria.
Veja, bombril e cândida depois, Marcela jurou que poderia tirar uma soneca antes do sábado continuar. Mas como conseguiria pregar os olhos com aquele perfume "baixou a Amélia em mim"? Resolveu se livrar daquele odor, antes de ficar com falta de ar, como sua diarista dias atrás.
Banho é bom, mas acorda. E tinha que despistar o sono mesmo, pois o bichano estava a 220 volts Quis brincar, cafuné na barriga, reinventar o esconde-esconde, escalar as plantas, tirar os enfeites de lugar...
"Meu Deus de onde tiraram essa ideia que um gato pode nos acelerar a saída do processo de luto? Me deixa criar raízes no sofá Eros, que espero o fim do mundo em ribanceira para morrer encostada", pensou Marcela.
Lembrou do colega de trabalho contando da teoria recente que "há cada vez mais crianças hiperativas para tirar os adultos de suas frequentes letargias depressivas". E não é que faz sentido? Tinha uma criança em casa, mais barata, que a obrigava a correr de lá para cá e "botar a velha e desbotada depressão pós perda do pai na árvore do quintal" para tentar - só tentar - acompanhar o ritmo do filhote.
De repente, se pegou cozinhando. Planejou levar alguma coisa à roda de criatividade, mas o que? Tinha virado uma pessoa "mono": fazia tudo para apenas um comer e perdeu a mão de aumentar as receitas.
Trocou umas fotos de lugar com os miados do bichado como trilha sonora de fundo. Limpou até o que ele não sujou. Falou com o Eros como se tivesse gente em casa. Dançou com o cabo de vassoura e o gato se esfregou em seu pé. Ah! O primo que quando perdeu a mãe diz que de repente foi seguindo o gato da irmã até o banho de sol dele na varanda e quando deu por si, melhorou da perda da tia. Será que foi ele que arrumou o filhote? Eros se joga no sol. Por via das dúvidas, não custa tentar. Marcela põe os pés naqueles raios quentinhos.
Como sentiu lá no quarto, o pipi cat venceu. E o Eros Ramazoti - fala a verdade: quem é tão criativa para dar nome a um filhote? Pois bem, ele batizou ao menos três cômodos. Não via a hora dele tomar a última vacina e poder ser castrado. O irmão veterinário jurou que depois disso essa marcação de território acabaria.
Veja, bombril e cândida depois, Marcela jurou que poderia tirar uma soneca antes do sábado continuar. Mas como conseguiria pregar os olhos com aquele perfume "baixou a Amélia em mim"? Resolveu se livrar daquele odor, antes de ficar com falta de ar, como sua diarista dias atrás.
Banho é bom, mas acorda. E tinha que despistar o sono mesmo, pois o bichano estava a 220 volts Quis brincar, cafuné na barriga, reinventar o esconde-esconde, escalar as plantas, tirar os enfeites de lugar...
"Meu Deus de onde tiraram essa ideia que um gato pode nos acelerar a saída do processo de luto? Me deixa criar raízes no sofá Eros, que espero o fim do mundo em ribanceira para morrer encostada", pensou Marcela.
Lembrou do colega de trabalho contando da teoria recente que "há cada vez mais crianças hiperativas para tirar os adultos de suas frequentes letargias depressivas". E não é que faz sentido? Tinha uma criança em casa, mais barata, que a obrigava a correr de lá para cá e "botar a velha e desbotada depressão pós perda do pai na árvore do quintal" para tentar - só tentar - acompanhar o ritmo do filhote.
De repente, se pegou cozinhando. Planejou levar alguma coisa à roda de criatividade, mas o que? Tinha virado uma pessoa "mono": fazia tudo para apenas um comer e perdeu a mão de aumentar as receitas.
Trocou umas fotos de lugar com os miados do bichado como trilha sonora de fundo. Limpou até o que ele não sujou. Falou com o Eros como se tivesse gente em casa. Dançou com o cabo de vassoura e o gato se esfregou em seu pé. Ah! O primo que quando perdeu a mãe diz que de repente foi seguindo o gato da irmã até o banho de sol dele na varanda e quando deu por si, melhorou da perda da tia. Será que foi ele que arrumou o filhote? Eros se joga no sol. Por via das dúvidas, não custa tentar. Marcela põe os pés naqueles raios quentinhos.
domingo, 7 de abril de 2013
Tua falta
Tua falta ziguezagueou caminhos conhecidos
Tua falta sufocou com o não dito
Tua falta deixou estáticas as bandeirinhas budistas
Tua falta cruzou o post com o e-mail
Tua falta enxergou na leitura corporal a conexão de alma
Tua falta põe neon no adesivo de parede
Tua falta faz arder em febre o DVD esquecido
Tua falta se bate nas paredes
Tua falta vira do avesso as lembranças
Tua falta escorre pelo box
Tua falta renova as palavras
Tua falta indigna as ideias
Tua falta torna os sabores solitários
Tua falta adianta a alergia
Tua falta precipita a cólica
Tua falta vira de ponta cabeça os cheiros
Tua falta reinterpreta lições de meditação
Tua falta reassenta a entrada do ar
Tua falta escorre o bom senso
Tua falta liberta a represa da língua
Tua falta desnorteia os desejos
Tua falta cura instintos
Tua falta reiventa meu restauro com a percussão
Tua falta reordena meu caos criativo
Tua falta põe luz nas minhas urgências
Tua falta reaquece meus sonhos
Tua falta põe óleo nas minhas engrenagens que rangiam
Tua falta sufocou com o não dito
Tua falta deixou estáticas as bandeirinhas budistas
Tua falta cruzou o post com o e-mail
Tua falta enxergou na leitura corporal a conexão de alma
Tua falta põe neon no adesivo de parede
Tua falta faz arder em febre o DVD esquecido
Tua falta se bate nas paredes
Tua falta vira do avesso as lembranças
Tua falta escorre pelo box
Tua falta renova as palavras
Tua falta indigna as ideias
Tua falta torna os sabores solitários
Tua falta adianta a alergia
Tua falta precipita a cólica
Tua falta vira de ponta cabeça os cheiros
Tua falta reinterpreta lições de meditação
Tua falta reassenta a entrada do ar
Tua falta escorre o bom senso
Tua falta liberta a represa da língua
Tua falta desnorteia os desejos
Tua falta cura instintos
Tua falta reiventa meu restauro com a percussão
Tua falta reordena meu caos criativo
Tua falta põe luz nas minhas urgências
Tua falta reaquece meus sonhos
Tua falta põe óleo nas minhas engrenagens que rangiam
terça-feira, 2 de abril de 2013
Reacomodando uma nova marca
Um dia ficou um vácuo ininteligível. Ela procurou alguma resposta, mas a máxima de seu mestre budista de que a vida não tem sentido se fez mais forte. Sentiu como se estivesse antecipando a tatuagem imaginada e a procurava no corpo tentando se habituar àquela nova marca que só ela notava. Se encontrasse, passaria a mão, talvez reconhecesse sua razão de estar ali. Mas levou um tempo para entender que era interna. Estava marcada a fogo, suor e água salgada, mas só ela percebia. Tocou o barco. Numa noite descompromissada procurou um olhar novo, mas foi o outro que sorriu para sua primeira saída do casulo em que ensaiava lamber suas próprias marcas. Riu feito na infância e ainda compartilhou com a parceira de sempre. Pode ser forte mais tarde para carregar a dor dela no colo. O novo talho tenta sobressaltar, mas despista colocando ideia por ideia por ordem de chegada e pondo uma por uma para voar. Obrigações, necessidades e sobrevivência deixam qualquer ensaio de mal estar falando sozinho. Indo para onde pratica "textoterapia", tem uma ideia, de uma proposta que a falta de juízo queria fazer, mas a retração alheia não escutou. Só tinha dúvida de como resolveria o conflito dramático essencial a qualquer roteiro que se preze e foi gestando... Cervejas mais tarde com a companheira das letras, não pode mais segurar, que criação "encroada" urge feito febre de leite empedrado. Foi encaixando às linhas, acolhendo aquele barulho do lápis no papel e no final, a personagem não se rendia, escolhia a liberdade. Como decerto ela também faria. Noutro dia cedinho, andando com o cachorro e se processando mal estar externo, entendeu que a nova marca viraria uma parte que a faria melhor, sabendo que não se apressa o curso do rio, nem da vida. Quis acelerar o passo para conferir se o vizinho que andava à frente era mesmo tão interessante quanto parecia, mas estancou, só por se perceber viva. Pulsando. Voltou cantando de uma sabatina, um colega quis emprestar parte da felicidade dela, por estar triste, que felicidade? Como no filme de Arnaldo Jabor, não acreditava que ninguém fosse feliz, com sorte botava fé na alegria. Doou um pouco, mas deu a receita de teatralizar o que queria sentir, também não tinha chegado lá. No fim do dia teve dose dupla de tratamento no incômodo e pela primeira vez num longo e tenebroso inverno, a perceberam neutra. Devia então ser grata por sair da zona de conforto e se ver quase em equilíbrio, longe dos extremos aos quais tinha se mal acostumado? Provavelmente. Ainda vai virar uma das marcas internas mais cheia de nuances.
sexta-feira, 29 de março de 2013
Abraçoterapia no "seu Benedonça"!
Ele oferece caronas e o pessoal do bairro nega e justifica que está com pressa. Acha que sou louca, mas só nós valemos a pena. Quando digo que faço um teste com amigo colorido, diz que teste é com carro. Me fez um suporte para saia de baiana na apresentação da peça Enfim, o Paraíso que só faltou usar esquadro e régua, de tão milimetricamente calculado e simétrico. Sempre conta que quando dormiu achando que os ETs deviam nos levar embora, sonhou com um disco voador chegando, se animou, mas um raio da nave o atingiu e ele acordou. Acha que Deus fez uma experiência com a gente, não deu certo e nos abandonou aqui. Minha via cômica irônica vem toda dele. Quis fazer uma terapia em grupo que uma prima coordena no interior e no meio de pais desabafando dos filhos alcoólatras e toxicômanos, "chorou as pitangas" pela filha dele fazer teatro, não ter trabalho e nem dinheiro... Mas depois reconheceu que não tinha problema. Acha que devemos cobrar uma espécie de pedágio de amigo colorido. Quando viu minha amiga me maquiando para irmos à virada na Avenida Paulista, avaliou que estava ficando sexy. Se me vê contando os motivos de término de namoro ou casamento, sempre acha que demorei para por ponto final. Às vezes resolve brincar de marceneiro de madrugada, para desgraça dos vizinhos e de quem mora com ele. Como eu, também não dorme lá muito bem. Quando era criança, me ensinou expropriação e distribuição de renda dando sem me explicar muito bem uma boneca minha para uma menina menos favorecida numa igreja, no batizado do filho do amigo dele. Estou limpando os olhos nas fotos desse evento. Uma vez me deu um Autorama - que na verdade foi um presente para ele, já que nunca brincava de carrinho e ficava vendo meus primos atirarem os carrinhos na parede. Quando já tínhamos carro derrubei uma boneca da janela indo não sei para onde, mas ele não parou. Acha que devia fazer os sonhos dele, que depois meu filho realizará os meus. Corria atrás de mim em volta da mesa quando fazia greve de fome na infância e minha tia atrás dele para não me bater. Balançando na rede uma vez nos batemos na parede e eu muito civilizada descontei nele. Meu pé no peito também provém do meu genitor. Me explicou o encontro do óvulo e espermatozoide com farelo de pão num café da manhã. Via filme de guerra de madrugada comigo e inventava uma justificativa qualquer quando perguntava se era invenção do filme aquele soldado querendo fazer uma barbaridade enquanto outros não concordavam. Era na barriga dele que acalmava da pressão alta no olho quando bebê. Foi o "motorista Jarbas" da minha adolescência, buscando e levando eu e amigas na danceteria e noutras baladas. Até hoje quando conto que atravessei a cidade ele quer saber qual o motivo de não pedir carona dele. Diz que minhas comidas naturebas são alpiste. Xingou horrores o frio na porta da igreja quando casei, mas foi a única vez que o vi correr para me despachar ao pé do altar. Me colocou num curso de desenho técnico onde me traumatizei com a régua e o esquadro e parei de fazer histórias em quadrinhos, mas tinha lá suas razões, afinal eu colecionava plantas de apartamentos de revistas, podia render alguma coisa. Me dava gibis e numa época assinou um "pacotezinho" em que vinha várias revistinhas da Turma da Mônica. Quando cismei de dizer que ia ganhar uma boneca cara que a propaganda anunciava, me explicou que não dava, compraria outra, era muito cara, como se fosse "adultazinha" pra entender o que dizia, mas devo ter compreendido, pois nunca bati pé em loja ou mercado por nada nesse mundo. Ficava enlouquecido por ser criança elétrica que não parava, corria, me ralava inteira. Quando minha mãe grudava enfeite na minha cabeça careca de bebê branquelo, ele tinha dó e tirava. Logo que nasci, meu primeiro presente foi uma blusinha do Corinthians, mas nunca me levou ao estádio. Na minha primeira formatura, disse que não dançaria, mas quando tocaram sei lá que música foi me pegar para circular no salão. Ele lê revistas de aviação, mas trabalhou e estudou com outra coisa. Às vezes quer nos contar o que lê em voz alta. Zapeia, não para em canal nenhum, mas num volume que não permite repouso num raio de 100 metros. Há 35 anos vou guardando uma memória mais engraçada do que a outra com ele, que hoje faz 68 anos. Afirma que já é do século passado. Não sei ele, mas o grande presente que dei para nós este ano foi ouvir a terapeuta e sempre que não conciliarmos opiniões posturas, visões de mundo, abraçá-lo. Agora ele espirra, resmunga, dá coice, tira sarro, qualquer coisa e eu abraço. Ele faz igual o Bidu e vai esfregando a cabeça no carinho. Evoluímos um bocado, pois antigamente eu abraçava e ele dizia "igualmente". Agora vou conduzindo: "isso, solta esse braço, estica a mão, vai arredondando, agarra". E nos rendemos. À relação mais passional e exaltada que conheço (se há outras, são inconfessas). Uma colega que orienta a terapia constelação tem razão quando diz que a irritação era pelo amor que não conseguia fluir. Depois que ele circula... A gente vê eles como meninos meio perdidos emocionalmente no pré infância, que não deixaram chorar, apanhar de algum coleguinha folgado ou não queriam brincar sozinhos e saíam chutando a casinha das irmãs, como ele. Pronto! Você não bateria boca com uma criança analfabeta emocionalmente. Só abraça. E o que interessa circula. Inclusive os desejos de saúde, proteção e paz de espírito. Hoje e sempre.
quinta-feira, 21 de março de 2013
Casa da Mãe Joana
- Caraca!
- O que foi?
- Meu pai!
- Mas ele não avisa?
- Bom, o pedido tem sido esse! O pior
é que já falei que ia me pegar com a “buzanfa” para cima e ele está pensando que é
brincadeira...
- Cobre isso aí. Cadê minha
cueca?
- Não sei. Você acha que enxergo
sem luz e óculos? Menos ainda despencando da cama de madruga!
- Achei. Catzo, cadê a embalagem
da camisinha?
- Sei lá, a gente batizou a casa
inteira ontem. Onde enfiei o KY?
- Ficou em cima do lustre.
- Ufa! Bem escondido. E meu
sutiã?
- No balcão da cozinha.
- Ainda bem que sua memória é imbatível. Difícil recolher rastro de "suruba doméstica" a toque de caixa.
- Esconde essa coleira, teu
cachorro nem voltou da tua mãe, vai dizer o que?
- E essa máscara?
- Ah isso pode inventar que é
ensaio para pular na avenida por causa do Carnaval. O que você vai falar?
- Pai esse é o meu freela fixo.
- Heim?
- Não temos vínculo empregatício, mas já conquistei uns benefícios trabalhistas e uma certa estabilidade nas
parcerias.
- Chato.
- Mas é pra constranger mesmo!
- Fala que eu...
- É o cara que troca meu óleo...
- Você esqueceu do exame cedo
filha?
- Pai, esse é o meu amigo arco
íris.
- Igual ao logo da parada gay? Ele
também é...?
- Isso! Sabe que temos mais bom
gosto e fiquei discutindo a estética da fantasia dela até tarde, acabamos
desmaiando bêbados de sono no sofá cama.
Uma semana depois
- Ah não!
- Teu pai de novo?
- O marido da minha madrinha que está pintando a casa. Pior que meu pai, toca a campainha e já mete a chave na porta. Você nem se mexe?
- Eu não, isso aqui é pior que a Casa da Mãe Joana.
- Vou lá tocá-lo fazendo de conta que minha mãe me deu educação... Tio... Tem gente em casa...
- E ele?
- Disse que volta mais tarde e jogou as coisas da pintura lá na sala.
- Da outra vez pensei em me atirar da janela, mas...
- O que?
- Quebrar a perna não podia ser melhor que bancar o ator para o seu pai.
Contaria entre vinícolas e decoração floral, mas...
Na primeira manhã de trabalho juntas, ela ofereceu rapadura. De cara eu pensei:
- Mas não é mineira minha primeira estagiária? Cadê os pães de queijo caseiro para humilhar nossos congelados que quebram um galho da falta que faz comida de fogão?
E por falar nela... Não, minha parceira profissional que se tornou amiga para a vida nunca usou microondas. Não se vem da terra de Drummond sem jeito para as panelas.
Pegando carona nele... Ela que me contou ter discussões literárias infindáveis em cima do verso "Itabira é apenas uma fotografia na parede" que dividem os acadêmicos entre os que acham que ele acredita que a cidade parou no tempo e os que sentem no verso saudade da terra dele.
Saudade... Tudo bem que ela veio trazer o convite para o casamento, que está chegando, mas o sentimento acompanha a gente quando a amiga muda alguns países para lá. Não que dê para se habituar, nós começamos a deixar a saudade falando sozinha, a vida vai atropelando, a chuva distraindo...
O toró! Nós paramos embaixo de toldos quando a água caiu perto da casa dela, não podíamos permitir que São Pedro estragasse sei lá que química feita no cabelo dela, os cabeleireiros estão pela hora da morte, é preciso defender com unhas e dentes o direito a ser cabelo tobogã, mesmo desconfiando que se tiver ondas ou cachos por trás de escovas devam ser mais impactantes, mas como lutar contra a opressão dos lisos? Nem admitindo nossas raízes africanas...
As raízes... Fomos juntas a um show da Fanta Konatê e dançamos nossa ascendência na grama do Museu da Casa Brasileira. Mexer o esqueleto! Ela me introduziu ao samba rock no Teatro Mars, no coração do Bixiga, onde depois tentei fazer aulas de tecido, mas nem o corpo e nem a falta de grana colaboraram. Fomos tiradas para dançar salsa no Pacha Ynti, também na Bela Vista, matando a fome da madrugada na irresistível Augusta.
Fominha? Comemos uma pizza entre amigos na Cantina do Mário, no Ipiranga, onde vivi, fugi e voltei. Amigas que depois atualizaram juntas o saudoso blog Clube da Lulu. Colecionamos histórias impublicáveis, que devidamente editadas se tornaram matéria prima das peças que escrevi sobre o universo feminino. Estas que ainda não rendem o suficiente para conferir o casório da estagiária da minha vida em Vina Del Mar, onde aposto que estará deslumbrante no fim de semana, imagino que com violinos e flores ao redor, vestidinho de parar o trânsito e vinho o suficiente para fazer muito convidado brazuca chorar a cântaros e os chilenos metidos a europeus estranharem o quanto somos passionais exaltados.
Como bruxinha fada madrinha que disfarçou enquanto ela fazia teste online no expediente, desejo viagem o suficiente para cobrir uma parede com fotos de recordação, que dancem até os músicos pedirem arrego, que bebam até não pararem de rir, que abracem inclusive os parentes e amigos que só encontraram no batizado, que se deliciem com gostosuras de festa, que planejem filhos e projetos pessoais em dupla imbatível, que tenham surpresas de encher os olhos abrindo presentes, que as tias mineiras levem broa, que os chilenos recitem Neruda, que o padre fique sem palavras diante de tanto amor na frente dele e que definitivamente seja menos corporativa mineirinha e estude gastronomia para em breve promovermos uma orgia gastronômica juntas. E que vocês curtam frio a dois que é a glória, glória, aleluia! Frio que já passamos em Paranapiacaba, uma vilinha inglesa perto de Santo André, com músicas e comidinhas marcantes, como nossa amizade.
- Mas não é mineira minha primeira estagiária? Cadê os pães de queijo caseiro para humilhar nossos congelados que quebram um galho da falta que faz comida de fogão?
E por falar nela... Não, minha parceira profissional que se tornou amiga para a vida nunca usou microondas. Não se vem da terra de Drummond sem jeito para as panelas.
Pegando carona nele... Ela que me contou ter discussões literárias infindáveis em cima do verso "Itabira é apenas uma fotografia na parede" que dividem os acadêmicos entre os que acham que ele acredita que a cidade parou no tempo e os que sentem no verso saudade da terra dele.
Saudade... Tudo bem que ela veio trazer o convite para o casamento, que está chegando, mas o sentimento acompanha a gente quando a amiga muda alguns países para lá. Não que dê para se habituar, nós começamos a deixar a saudade falando sozinha, a vida vai atropelando, a chuva distraindo...
O toró! Nós paramos embaixo de toldos quando a água caiu perto da casa dela, não podíamos permitir que São Pedro estragasse sei lá que química feita no cabelo dela, os cabeleireiros estão pela hora da morte, é preciso defender com unhas e dentes o direito a ser cabelo tobogã, mesmo desconfiando que se tiver ondas ou cachos por trás de escovas devam ser mais impactantes, mas como lutar contra a opressão dos lisos? Nem admitindo nossas raízes africanas...
As raízes... Fomos juntas a um show da Fanta Konatê e dançamos nossa ascendência na grama do Museu da Casa Brasileira. Mexer o esqueleto! Ela me introduziu ao samba rock no Teatro Mars, no coração do Bixiga, onde depois tentei fazer aulas de tecido, mas nem o corpo e nem a falta de grana colaboraram. Fomos tiradas para dançar salsa no Pacha Ynti, também na Bela Vista, matando a fome da madrugada na irresistível Augusta.
Fominha? Comemos uma pizza entre amigos na Cantina do Mário, no Ipiranga, onde vivi, fugi e voltei. Amigas que depois atualizaram juntas o saudoso blog Clube da Lulu. Colecionamos histórias impublicáveis, que devidamente editadas se tornaram matéria prima das peças que escrevi sobre o universo feminino. Estas que ainda não rendem o suficiente para conferir o casório da estagiária da minha vida em Vina Del Mar, onde aposto que estará deslumbrante no fim de semana, imagino que com violinos e flores ao redor, vestidinho de parar o trânsito e vinho o suficiente para fazer muito convidado brazuca chorar a cântaros e os chilenos metidos a europeus estranharem o quanto somos passionais exaltados.
Como bruxinha fada madrinha que disfarçou enquanto ela fazia teste online no expediente, desejo viagem o suficiente para cobrir uma parede com fotos de recordação, que dancem até os músicos pedirem arrego, que bebam até não pararem de rir, que abracem inclusive os parentes e amigos que só encontraram no batizado, que se deliciem com gostosuras de festa, que planejem filhos e projetos pessoais em dupla imbatível, que tenham surpresas de encher os olhos abrindo presentes, que as tias mineiras levem broa, que os chilenos recitem Neruda, que o padre fique sem palavras diante de tanto amor na frente dele e que definitivamente seja menos corporativa mineirinha e estude gastronomia para em breve promovermos uma orgia gastronômica juntas. E que vocês curtam frio a dois que é a glória, glória, aleluia! Frio que já passamos em Paranapiacaba, uma vilinha inglesa perto de Santo André, com músicas e comidinhas marcantes, como nossa amizade.
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