domingo, 18 de agosto de 2013

Talhar a palavra

Palavra parceira
para pausar
a paixão perigosa
para capturar
pensamento parando
na paisagem
pouso proibitivo
por pouco tempo
em plena ponte
de pura pedra
só para respirar
se perder no fiapo
do presente
Polir a palavra
lapidar as pontas
temperar o prato
repleto de partes
partidas do peito
Se prender na palavra
pincelar suspiros
perder o passado
paquerar lampejos
de paisagens que passaram
pelas piscadas
Pintar a palavra
perguntar para o poema
participar do parto
percorrer pedaços
parcelar a poesia
Pingar na palavra
pontas lapidadas
pela inspiração
procurar partes
de porcelana
para aprimorar
papo de apaixonada
pela puta palavra
percorrê-la
de ponta a ponta
Pescar a palavra
passionalmente
percorrer pedaços
procurados
pelo pincel
personalizado
pintando do lápis
Por a palavra
para pulverizar
os portais
da pulsação
Põe a palavra
para repousar
Empastela a palavra
plastifica o pensar
Pingo de palavra
põe para pipocar
a parceira paralela
pedaço de apaixonar!
Perdão palavra
posso personificar
percepções palatáveis
ponho em parênteses
a presença
pouco prática
para explicar
Polida palavra
repercute
parte do que passo
picada para purgar
pulsando o que me pinça
Palavra sapeca!

sábado, 17 de agosto de 2013

Amor aos solavancos

O corpo
meio passional
e meio brincalhão
Se deitou
ao lado teu
e o chão
não estremeceu
Deus do céu
esse peito
te esqueceu
Você ressonou
assim pertinho
e meu maior órgão
Não quis nenhum carinho
Tua mão terapeuta
ajustou minha perna
e teu toque
não deu choque
É uma graça alcançada
minha dor foi aquietada
Outro amor
o silêncio do quarto fez lembrar
mas finalmente sem dor
e nenhuma borboleta no estômago voar
Quando o ensaio
de paixão atual
minha coluna arrepia
não confio: essa faísca
é sempre igual
Assenta coração tropeiro
que nos teus solavancos
boto cabresto e reio 
Franzoca Brandão

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Nego que dedo é esse?

Nego que dedo é esse?
Cujas pontas mudam a orientação dos meus pelos?
Nego que dedo é esse?
Que passa pela sua foto e não se reconhece?
Nego que dedo é esse?
Que pipoca estrelas pra dentro de casa?
Nego que dedo é esse?
Que assenta a doidera do meu computador?
Nego que dedo é esse?
Que estala fogos de artifício pra ti?
do meu lado
mas quase sem barulho?
Nego que dedo é esse?
Que abre espaço pra novas cores,
cheiros e sabores
mudarem tua opinião
fervilhando no seu céu da boca
Nego que dedo é esse?
Que mapeia meus poros
pra eu inventar uma nova língua
Nego que dedo foi esse?
que minha memória corporal embotou
mas nosso lastro logo relembrou?
Nego que dedo foi esse?
que pôs as borboletas do meu estômago
em cambalhota efusiva?
Ih nego que dedo certeiro...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Lua encoberta

A garoa que tomei
rendida em olhar entregue
fervilhava uma cólica
pulsava em paralelo música do Vinícius
choque entre palavras e gestos
faiscava a melodia de um poema do Drummond
E eu, quase translúcida
Me rendi à tua máscara teatral
gotas me encharcam
permiti ao banho descompromissado
se fartar no cheiro da chuva
tua presença, sorriso encoberto
com teu silêncio, sono sem abraço
contigo, tatear às cegas em manhã nublada
abandono à procura de luz de estrelas
neste céu da boca

domingo, 4 de agosto de 2013

Em Parati com a Tatit

Somos irmãs por adoção e como na peça Cinzas do Velho, fizemos resgates inesperados na última semana, não dando cabo da cremação do pai e se prendendo num hotel de beira de estrada com carro quebrado como no espetáculo, mas quase trabalhando juntas, viajando, ganhando carona, consolando dores de paixão reincidentes, dançando e forçando a cuja bateria arria mais rápido a por o esqueleto para mexer. No saldo, uma manhã e uma noite sob lágrimas, o que parece ser um saldo positivo para quem cismava com a dubiedade do que sentimos, por conta de nosso jeito pé no peito capricorniano-Mendonça de amar.
Com massagem também se expurga mal estar emocional retardatário. Ou simplesmente se demonstra carinho espontaneamente. Pães na chapa e cafés cheirosinhos deram bom dia às nossas dores, risadas e sonhos ao menos umas três vezes nos últimos sete dias. Caronas comportaram palpites providenciais, gargalhadas espontâneas aliviaram mal estar emocional, cafunés noturnos acolheram dores imprevistas, risadas nos libertaram de "ranzinice" velha de guerra, soneca em beira de piscina aterrada deram uma trégua do calor meio trator entre árvores e pássaros violentando a cidade cinza, presente inesperado escancará em parede pelada a bênção de compartilhar gostos, desentendimentos, sabores, amores, reportagens e crônicas imperdíveis e impagáveis, além de roupas, batons, ideias, generosidade, presentinhos amortecerem amores que volta e meia davam coices ou cabeçadas - mas nem por isso negavam esse querer bem praticamente "de sangue".
E entre lágrimas, stress, palhaçadas, preocupações, boas vindas, caminhadas, acolhimento da escorregada do pé na jaca alheia, ampliação da flexibilidade com nossos mestres de paciência familiares, arrasta pé, troca de vivências espirituais, "uso da ironia como segunda língua", abraços nos amores de nossas vidas mais genuínos, "navegação autista de viciadas", nos deleitamos com uma nova velha paixão: Parati. Enchi os olhos e voltei à infância com o telhado de chita da pousada para lá de simplesinha, na qual perdemos o fôlego de rir, chorei no cais dos barcos como "mineiro que debuta com o mar", "fartei" os pés num chão histórico e descômodo, fizemos amigos, a simpatia dos caiçaras quase me fez passar por nativa, rejeitamos restaurantes "praticamente franceses","botecamos" à beira de pracinha interiorana, me desculpei com o primeiro cavalo de olhos claros da minha vida por subir nele para matar a saudade de andarmos juntos, perdi a vergonha de mergulhar de calcinha e sutiã, "tão pouco diferentes" do esquecido biquini, singrei os mares fluminenses deitada e folgada e - quem diria, ironia do destino - retornei à meditação me fartando da paisagem no farol histórico. Não, nem tudo são amores. A sobremesa italiana me deixou empachada, o chão do quarto e lençol onde dormimos eram suspeitos, bêbados forçaram amizade na viagem e na balada, imprevistos abortaram ainda mais delícias conjuntas, a pele meio papel de seda se ressentiu dos paralelepípedos paratianos, Iemanjá levou mais que imaginava após nosso ansiado reencontro e a areia da Ilha Duas Irmãs lembrava a de Itaparica pq não se transforma uma praia em particular impune. Mas tudo contribuiu para um raro sono de Mendonça voltando para o caos metropolitano. E nele acolhemos pirações, relevamos os lados gourmets que enfiaram os pés nas jacas, mimamos a "filha-afilhada adotiva", brincamos de Lilica com a tarada canina e de afro noturnas, botamos chateação fora de lugar para correr, demos apoio moral à inadiável faxina, fomos carona paciente, cantoras, cabeleireiras, prolixas e filósofas, além de comprovar que de médico e..."louca mansa", Deus e o mundo têm uma porção significativa.
Bem, se havia dúvidas sobre essa "irmandade construída", espero que elas tenham se dissipado.
P.S.: Este post espera por suas "ilustrações" brother rs

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quando me vi aranha...

Teu medo patológico se justificava
mas joguei a teia do apaziguamento
Me apontava possibilidades de maior entrega
te "novelei" descartando rótulos
Tua falta de tempo se desculpou
mas te enredei retardando suas manhãs
Seu aperto, sem graça, se interpôs entre nós
nos enveredei pelo roteiro alternativo sub undergroud
Teu aperto corporativo se explicava
mas as garras do meu senso de humor
o que me dizia que passaria semanas conversando
te faziam adiar essas trocas
Teus alertas de que um ensaio de relação
não necessariamente conduzem à ampliação dela
tiveram o rumo da prosa alterado pelas teias dos meus cílios, dos cabelos...
Quando propunha que o fizesse bater em retirada
por uma história com menos restrições
meus temperos se mancomunavam
e te levavam para a infância
a casa da avó
as tábuas de madeira
uma outra luz entre as ripas
E se previa que qualquer dia
um filme me encantaria
e afinal eu decidiria
por uma vida mais cinematográfica
A pipoca com manteiga
distraía a vontade de chorar
que o escuro atrás das telonas
camuflava que talvez tivesse razão
E quando te reencontrava
a teia das minhas pernas te prendia
um pouco mais
Minhas teias só não continham
a mudança do meu olhar
a postura que travava
e você...perguntava
Afrouxei a teia
só um bocadinho
meu desejo de mais
desaguou
nem se especificou!
Naquela noite
teu braço não me enlaçou
E você, como era de se imaginar
nunca mais voltou.
Quando arriei o vácuo da tua falta
e enxerguei para além
dessa falta que lateja
Vi as teias, todas
amarrando sua língua
quando cantava
que era só uma chuva
Só podia me engasgar
com meu próprio veneno
Nesse dia quis te escrever
ser lacônica
pedir perdão
Mas a rede das palavras
finalmente se rompeu

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Revoada

Quero um amor deseducado
que tem tanta sede de sorver a vida em grandes goles
mal se lembra de pedir licença
Um amor que me pega no tranco
e deixa a pele em dúvida
se encharca ou arrepia
Quero um amor anestésico
que passe pelas feridas feito xilocaína
Quero um amor revoada
que me despenteie
que borre o batom
me deixe amarrotada
Quero um amor que me vire de ponta cabeça
que me deixe do avesso
que estoure botões e zíperes
que deixe marcas vexatórias no dia seguinte
Quero um amor em ebulição
que arrepie a base da coluna
e ponha as borboletas do estômago para correr
que imprima um rastro dolorido no pescoço
que me deixe sem ar entre o abraço e a parede
Quero um amor desgovernado
que não lembre onde estão as chaves
que quebre os brincos, derrube óculos
Quero um amor arrasta pé
que não resista a um ziriguidum
que dance como se ninguém estivesse vendo
que rodopíe de olhos fechados
Quero um amor que preencha
que dificulte segurar o riso no escritório
que não ensaie o que diz
que esqueça a marca e a fala
que perca o rumo de volta
Que queira correr pro lago no parque
que perca a memória
que reinvente a história